quarta-feira, abril 04, 2007
Trabalho
segunda-feira, abril 02, 2007
Eu sou aquilo que falta

Hieronymus Bosch
Eu sou aquilo que falta
ao mundo em que vivo,
aquele que entre todos
jamais encontrarei.
Rodando sobre mim mesmo agora coincido
com o que me foi tirado.
Eu sou o meu eclipse
a revelia, o desconsolo
o objecto geométrico
a que para sempre deverei renunciar.
Valerio Magrelli, "A Espinha do P"
Trad. colectiva (Mateus, 1992)
Quetzal Editores
quinta-feira, março 29, 2007
Efeito borboleta
quarta-feira, março 28, 2007
Super Flumina Babylonis

E ficou escrevendo pela noite adiante.
segunda-feira, março 26, 2007
Estava muito calor nessa tarde. A governanta encaminhou o seu doutor para o quarto da menina Laura. O seu doutor já era amigo do papá deste os tempos de Coimbra. Tirou o estetoscópio da maleta e pediu-lhe para abrir a blusa. A menina Laura faz sempre o que lhe pedem. Escorriam lágrimas de suor do seu peito que cheirava a leite de coco. O seu doutor limpa a fronte e tenta a sua sorte:
- não gosto deste tipo que está a falar.
- porquê?
- não gosto de grandes actores. São uns pretenciosos, fingem que são humildes. Representam até quando morrem.
A menina não tirou os olhos da televisão.
- mas a Laurinha gosta de teatro?
- não...isto é, gosto de ver revista na televisão. Sou alérgica ao pó do palco e já tive ataques de epilepsia por causa das luzes.
- ah..é pena, sabe. Tenho aqui dois bilhetes que me arranjaram para uma peçazinha no Maria II.
- eu vou falar com o papá logo, talvez ele queira ir.
- não se incomode menina, eu próprio falo com ele. Vá, respire fundo agora.
Acto II
- Já chegaram as meninas Didascálias? Atrasam-se sempre, é que não já há pachorra. Mais cinco minutos e palavra de honra que me vou embora!
Acto III
Macintosh ama Macbeth perdidamente. Mas Macbeth ama MacDonald. Macintosh rasga Macbeth e formata-se logo em seguida.
MacDonald entra em estado vegetativo e fecha as portas.
verniz
sexta-feira, março 23, 2007
Sakuntalam

Georgia O'Keeffe
Qualquer amante está amaldiçoado
a esquecer, por um só momento,
a sua mulher: como o rio de
amnésia que devora o seu amor.
Qualquer amada está amaldiçoada
a ser esquecida até que o seu segredo
fique preso na rede da memória.
Qualquer criança está amaldiçoada
a crescer orfã de pai
com a sua mão na boca do leão.
K. Satchidanandan
quinta-feira, março 22, 2007
o dia seguinte

J.H.W. Tischbein
ontem, o dia da poesia, fui acometido pelo meu velho desejo de roubar carteiras e não dar o dinheiro aos pobres, gastá-lo estupidamente em revistas cor-de-rosa e dropes.
algo revelador aconteceu depois: a minha mãe disse-me, à noite, que fui um parto difícil e que eu tinha sido "fada-do-lar" na casa do Goethe, numa outra encarnação. fiquei surpreendidíssimo com estas afirmações, não sabia que a minha mãe conhecia Goethe. já admiti publicamente que gosto de limpar e aproveitar palavras que os outros deitam fora para depois reescrevê-las ao contrário, fora do sítio, sem qualquer tipo de ordem ou lógica. nada mais do que isto.
antidesparasitante
o sacana do gato que não perde pela demora! é guerra aberta: logo vou por piña colada no pratinho em vez do leitinho do dia.
quarta-feira, março 21, 2007
Águas Furtadas nº 10
segunda-feira, março 19, 2007
baralho os primeiros Sinais deste ano

R B Kitaj
enterro-os no jardim interior do prédio
(todos nós deveríamos ter um pequeno quintal
a minha generosa vizinha
acolheu o sol
meteu-o dentro de si
cantando e celebrando
afinal é menino e
está tudo bem
do meu lado da parede
monto outra vez a cama de ferro
a tua pele traz de volta
a minha infância
quando ainda tinha dentes
e lágrimas
do outro lado da estrada
Pedro e Inês abraçam-se
no velho jardim e
negoceiam a eternidade
sexta-feira, março 16, 2007
Despedida
Desta vez não houve sangue, suor e muito menos lágrimas. Fitei-a por breves instantes. Procurei os meus sapatos e calcei-me, mesmo ali, de pé. Terminei o meu copo de whisky que, apesar dos antibióticos, tomava teimosamente todas as noites. Dirigi-me à cozinha, peguei na torradeira eléctrica e vim-me embora. Não me lembro de ter batido violentamente com a porta.
O porteiro, que não estava no seu local de trabalho quando entrei no prédio, não me cumprimentou como de costume, nem sequer desviou o olhar do pequeno televisor.
Começou a chuviscar quando finalmente saí.
As Ites e o Regulamento
Jorge de Sena, "Os Grão-Capitães",
Edições 70, 1976
quinta-feira, março 15, 2007
As Bodas de Cana(dá)
quarta-feira, março 14, 2007
Despedimento colectivo

Philip Guston
Ontem de manhã, o homem emborcou metade da garrafa de whisky que tinha reservada para ocasiões especiais, abriu a porta do seu gabinete, desceu a escadaria e despediu toda a gente num acto tresloucado. Confessou aos berros que desejava sangue novo e que já não gostava de nós. Em seguida, chamou o chauffeur, meteu-se no carro e dirigiu-se para a praia que fica do outro lado da rua. Arregaçou as calças, correu para a água e foi molhar os pés.
- Sim... Agora nada mais há a fazer, balbuciou a meia voz para as gaivotas.
Eu consegui safar-me, estava no banheiro* na altura. Hoje, encontro-me sozinho no escritório a pensar na bela fogueira que todos estes dicionários e arquivos dariam no meio deste moderno open space.
*Nunca antes tinha escrito as palavras banheiro ou kiwis num post.
segunda-feira, março 12, 2007
Now and again

D. H. Lawrence
All my body springs alive,
And the life that is polarised in my eyes,
That quivers between my eyes and mouth,
Flies like a wild thing across my body,
Leaving my eyes half-empty, and clamorous,
Filling my still breasts with a flush and a flame,
Gathering the soft ripples below my breast
Into urgent, passionate waves,
And my soft, slumbering belly
Quivering awake with one impulse of desire,
Gathers itself fiercely together;
And my docile, fluent arms
Knotting themselves with wild strength
To clasp—what they have never clasped.
Then I tremble, and go trembling
Under the wild, strange tyranny of my body,
Till it has spent itself,
And the relentless nodality of my eyes reasserts itself,
Till the bursten flood of life ebbs back to my eyes,
Back from my beautiful, lonely body
Tired and unsatisfied.
D. H. Lawrence
quinta-feira, março 08, 2007
O pequeno tirano
Corneille
Deixei de ser dono do meu próprio tecto a partir do momento em que caí na tentação de acolher no meu covil um pequeno mamífero de pupilas dilatadas e patas almofadadas, especialmente concebidas para ataques nocturnos, silenciosos e fulminantes. Domínio subtil e perverso. Desci na cadeia alimentar de forma humilhante. O pequeno tirano anda à solta pelos corredores e tenho a certeza de que vai lacerar-me quando estiver a dormir o sono dos justos. E o olhar da criatura? Mata-me, mata-me!
Dia Intern. da Mulher

terça-feira, março 06, 2007
Café Planeta Azul
no pacote de açúcar
a que chamo agora
de pacote de açúcar
tocam-me no ombro
alguém me confunde
com o filho de alguém
sou atento e educado
a pessoa vai-se embora
os dois homens
na mesa junto à janela
são de Lviv
pedem húngaros para levar
em língua recém-chegada
estepes e gasodutos convergem
no café Planeta Azul
inesperada mudança de canal
o americaníssimo Al Gore
entra no café Planeta Azul
"não entrem em pânico,
tudo está predestinado
Calvino tinha razão
resíduos e calotes polares
derretidos à vossa porta"
esfrego Hand e Nagel Balm
mit Aloe Vera
für schöne Hände
und kräftige Nägel
nas mãos
levanto-me
ainda não
levanto-me
dois cães vadios
patrulham a rua.
quinta-feira, março 01, 2007
O blog do sr. António Sousa Homem
De alguma maneira, o velho Doutor Homem, meu pai, incorporou todos os defeitos das burguesias e do racionalismo do Porto, moldado pela penumbra do céu e pela chuva que caía nas suas ruas de granito escuro. A sua vida intelectual era um luxo permitido pela família; a moeda de troca eram viagens e temporadas de preguiça. As viagens levavam-nos a hotéis e cidades com museus, lojas e restaurantes, em Espanha, França e – por duas vezes – em Inglaterra; a preguiça depositava-nos em Ponte de Lima para um a dois meses de Verão, onde as tardes eram invadidas pelos seus discos e pela desarrumação na biblioteca do velho casarão miguelista – onde se misturavam, nos sofás e nos cadeirões, jornais da época e livros que convidavam à sesta. Se me contagiasse, algum dia, a tentação (cada vez mais frequente nos portugueses) de escrever um romance, eu teria nos anos de ouro de Ponte de Lima um cenário atraente e luminoso.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Confessionário
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Pai
a outra decompõe-se em sons gelados e secos
ainda se segura, curvado e inquieto
sapatos escuros espalhados pelo quarto
vê as paredes que lhe deram os filhos
e agora pede que o deixem em paz
encosta-se na coincidência dos dias
e dispara palavras bastardas de agonia
deixa um rasto de abandono
por portas entreabertas
o tempo acumula-se no pó
o Grande Aposento Real
insulta a caixa das cores
acha-se o último dos duros
tapa as memórias nas paredes
sente o pé dormente
pede algo a alguém
antes de fechar os olhos
não dorme
acorda
outra vez
o ultramar de sempre apodrece-o
o dia espera por ele,
outra vez.
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
Pessoal intransferível

Martin Kippenberger
Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. sabendo: perigoso, divino, maravilhoso. Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena, etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, "herdeiro" da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.
Torquato Neto, in Os últimos dias de Paupéria
Editora Eldorado, 1974
sábado, fevereiro 24, 2007
Pedro e o Lobo na Casa da Música
Pedro e o Lobo - Orquestra Nacional do Porto
Com a projecção do filme de Suzie Templeton
24 de Fevereiro, 21h - Casa da Música

Por ocasião da abertura do festival de cinema Fantasporto, a Casa da Música propõe um programa em torno da banda sonora e da música para a grande tela. De salientar a estreia ibérica do filme de animação "Pedro e o Lobo" de 2006, da realizadora Suzie Templeton galardoada pela BAFTA (British Academy of Film and Television Arts). Com a etiqueta da Breakthru Films, trata-se de uma interpretação intrigante e fantástica da conhecida narrativa infantil e que será acompanhada pela ONP na interpretação do clássico de Sergei Prokoviev. O filme teve, desde o início, a colaboração do maestro Mark Stephenson, que dirigiu a sua première no Royal Albert Hall em 2006.
(Programa realizado no âmbito do 27º Festival Internacional do Cinema do Porto - Fantasporto)quarta-feira, fevereiro 21, 2007
W.H. Auden - Centenário do Nascimento

W. H. Auden
Celebra-se hoje (21/02/2007) o centenário do nascimento de Auden. Tal como o próprio Auden em “Under Which Lyre”, os seus admiradores gostam de se ver como filhos de Hermes (e não de Apolo), não apreciando particularmente a realização de eventos especiais. Porém, a BBC irá dedicar-lhe algum tempo de antena.
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
Os Patinadores
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Trabalho
Escondi-me debaixo da bancada de trabalho, há migalhas e más traduções espalhadas pelo chão. Ainda não deram pela minha falta, o que é bom sinal. Faço tricot com alguns caracteres enquanto espero pelo toque da sirene. Encontrei esta inscrição no tampo da bancada:
Por vezes o gelo é vermelho e um fruto
sem casca parece-se com a lua suspensa.
Perdoa-me por não me explicar melhor.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
dores de costas
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Na Colina do Instante
Isidre Nonell Monturiol
Há um cheiro de absinto quando os capricórnios
da casca apodrecida dos carvalhos velhos
iniciam seu voo pelo mês de junho
Colhemos avelãs ao longo do jardim
onde as tílias ao vento espalham o aroma
A frescura da fruta vence o sol rasante
Somos quem fomos caminhamos tão de leve
temos tamanha dignidade de crianças
que nem a morte aqui de nós se lembraria
nem mesmo a monstruosa flor de outros destinos
nem qualquer outra das repúblicas do ódio
encresparia o calmo mar do fim da tarde
É à celebração sagrada do acaso
à festa da essência mineral do mundo
que o sol procede no segredo deste templo
A tarde é tudo e tudo são caminhos
Somos eleitos cúmplices da hora
Aqui não chega o desatino do verão
esqueço a aversão dos meus antepassados
e levanto-me sobre a derradeira luz
Por instantes sou eu ninguém morreu aqui
ó minha vida esse processo que perdi
Ruy Belo, Todos os Poemas
Assírio & Alvim
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Novena

Alexei von Jawlensky
Voltaria a vender a minha alma se pudesse. Sou um homem de fracos recursos, apurei a ladainha de me lamentar por tudo e por nada. Conto os meus medos e fraquezas durante as minhas intermináveis novenas em nome de Simone Weil. Vendo-os a quem oferecer o melhor preço. Sem garantias, é pegar ou largar.
domingo, fevereiro 04, 2007
Buganvília
- ...D'accord, ça y est!
- A palavra é clausura.
- Non.
- De certeza?
- Non, desolée.
- Pensa noutra.
- ...
- A palavra é agora buganvília.
- Très bien, c'est ça.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Albânia

nesses dias todos nós já tinhamos ouvido falar da Albânia não havia ninguém que não soubesse era uma luz brilhante do socialismo europeu a outra luz brilhante eramos nós. nesses dias de Beijing a Tirana, todos nós sabíamos a canção com um amigo que conhece o teu coração, a distância não pode separar-vos. só mais tarde é que percebi que estas linhas eram do poeta Wang Bo da dinastia Tang, ele morreu há muito tempo, nunca esteve em Tirana claro, não sabíamos nada desse sítio: foi um grande pequeno amigo nosso, Wei Guo, que uma vez nos disse misteriosamente: a Albânia é como o reino chinês de Yelang. Lembro-me disto e garanto: foi em 1974 e tínhamos acabado de fazer 12 anos. achámos aquilo reaccionário.
Yang Li
Trad. (do inglês): a minha
terça-feira, janeiro 30, 2007
As palavras
Ouço ruídos de madrugada, parece um soluçar, uma lamúria que se escapa por debaixo da porta. Não posso garantir que sejam elas, porém.
Nunca mais entrei nesse quarto desde então.
sábado, janeiro 27, 2007
Jogos Florais

Oscar Araripe
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já vira vinho,
vira directo vinagre.
II
Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
erra e efeitos de vinho
o poeta sai de fininho.
(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)
António Carlos Brito
quinta-feira, janeiro 25, 2007
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Trabalho
Trabalho numa fábrica de fiação de palavras, supervisiono um sistema de linha de montagem verbal. Vou apresentar amanhã a minha carta de demissão ao sr. Rothschild. Já comprei uns óculos de aviador e vou construir um aeroplano. Mãos à obra, mas em nome do prazer.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Tempo Insone
terça-feira, janeiro 16, 2007
Noite de núpcias

Edward Burra
Mais uma vez: odiá-lo seria atribuires-lhe importância. Logo, a saída mais fácil para ti será amá-lo. Não são duas faces da mesma moeda, estás redondamente enganada. A indiferença é um equilíbrio precário, difícil de manter. O verdadeiro conhecimento provém do amor cego e trágico. Eu próprio abro-te as portas e estendo-te o tapete vermelho. Deixa de ser cordial e obsequiosa. Rasga-lhe a camisa e usa o cinto. Deixa-o ser o vilão. Não queiras dominá-lo, lambe-lhe antes as feridas. Não o respeites, porém. Se o fizeres, jamais te respeitará.
Já tenho o meu lugar cativo, prometo-te que fico até ao fim.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
Catamarã

Rothko
Fiz uma cruz com giz
no sítio onde te deves sentar.
Podes compensar a tua ausência
com o teu peito quente e cobiçado
o teu enfado é a minha medida:
Trouxeste a escova de dentes?
Guio-me pela estrela
Que paira sob a tua cabeça.
Mal viro as costas
fazes caretas
rodas o colar de pérolas
que o velho te deu.
O teu pai era um homem bom
sofria de prisão de ventre
mas foi o mar que o levou.
Tinha grandes buracos negros
em vez de olhos,
era hábil com as mãos
e fiel devoto da Virgem.
Dás nomes às gaivotas
e segredas-lhes uma melodia.
Vejo Neptuno ao longe
a acenar com o tridente.
Caímos os dois no velho engodo,
qual Ciência da Navegação?
Antecipo-me a ti
e pego na garrafa.
Cobres-te com o poncho negro,
fechas os olhos salgados.
Digo-te agora aquilo
que nunca te disse antes.
terça-feira, janeiro 09, 2007
Uma Navalha
observo um amolador
a afiar uma navalha.
"Então, amigo,
não se trabalha hoje?"
"Sim, trabalho
mas hoje
apetece-me
olhar para um amolador
a afiar uma navalha.
"Baixo a cabeça
e torno-me num pedaço
preto na rua,
a olhar todo o dia
até que o dia termine."
Yukio Tsuji
Tradução (inglês): a minha
terça-feira, janeiro 02, 2007
A invenção de Morel
Não acho indispensável tomar um sonho pela realidade, nem a realidade por loucura. (...)
A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares
Trad.: Miguel Serras Pereira
Antígona
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Entre os meus dedos

Antonin Artaud
Entre os meus dedos
Existe um peso de uma bola de chumbo
Uma luz escura que seduz
Um pedaço de sombra que diz
- Adeus
À Alma,
À Inocência,
À mesma mão
Que me foi retirada
Cedo.
És a ave negra que esgaravatou
És a sombra que desceu.
A vida é para ser vivida
Alguém
Chora
Alguém
Dança
Alguém
Perdoa
Alguém
Diz
Improvisa e canta,
Não sabes fazer melhor.
Brinda e desafina,
Pior não deves ficar.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
SEM FORMA
uma árvore na qual uma estrela dorme,
a catedral vazia de Chartres
e um guia impaciente
e mulheres esperando pelo comboio
e música fria como a saudade?
Se houvesse só isto,
governos alugando ministros
e ministros alugando polícias
e um anjinho
beijando os seus lábios de cera na cama
e dissidentes protestando
e manifestantes marchando
com crianças sorridentes
a música fria como a saudade
e a força que nunca dorme?
(...)
Adam Zagajewki
Trad.: Jorge Sousa Braga
terça-feira, dezembro 19, 2006
Dependência
sexta-feira, dezembro 15, 2006
How To Get On In Society

As cook is a little unnerved;
You kiddies have crumpled the serviettes
And I must have things daintily served.
Are the requisites all in the toilet?
The frills round the cutlets can wait
Till the girl has replenished the cruets
And switched on the logs in the grate.
It's ever so close in the lounge dear,
But the vestibule's comfy for tea
And Howard is riding on horseback
So do come and take some with me
Now here is a fork for your pastries
And do use the couch for your feet;
I know that I wanted to ask you-
Is trifle sufficient for sweet?
Milk and then just as it comes dear?
I'm afraid the preserve's full of stones;
Beg pardon, I'm soiling the doileys
With afternoon tea-cakes and scones.
John Betjeman
terça-feira, dezembro 12, 2006
Conto de Natal
- Já vou. Tou a acabar o cigarro.
- Os miúdos estão à espera, anda lá.
- Vou já.
Havia já esgotado todas as formas de o compensar. Agora tratava-se de pura cobardia. Era incapaz de viver outra realidade que não fosse aquela. Estava a lutar contra uma corrente demasiado forte. Estava exausta, incapaz de se mexer. Batia-lhe um vento gélido na cara, daqueles que fazem chorar. Quatro anos. Dormia com um recém-desconhecido que conhecia demasiado bem. Aperfeiçou-se na arte de ressuscitar vezes sem conta. E de se surpreender também. O silêncio que vinha da cidade incomodava-a, mas preferia estar ali, sozinha. Só de pensar que tinha de voltar para dentro. Algumas vozes e risadas dos velhos apartamentos que iam e vinham. Debandada quase geral para a aldeia. Êxodo sazonal, estúpido, para quê?
Mas, nessa noite, estava mansa, anestesiada. Tanto tempo à espera de uma consulta. Voltou a pensar nos miúdos. Última passa.
- Então?!
- Já vou.
domingo, dezembro 10, 2006
Musa

Pierre Bonnard
É uma criança dividida ainda pela noite e pelo dia. Esta separação é uma chaga interna que lhe percorre o corpo, de alto a baixo, e que sangra. De um olho negro, corre-lhe um fio de sangue como um cordão umbilical que a liga à noite. No outro há o espanto irreflectido de uma possibilidade inacreditável: uma pálpebra isenta, suspensa sobre um olho que se abre à luz demasiado possível, demasiado real, demasiado bela. É este todo o seu horror.
António Ramos Rosa, Círculo Aberto
Editorial Caminho, 1979
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Lembrete
Comprar peúgas e paulos coelhos para toda a gente
Haverá vida antes da morte?
terça-feira, dezembro 05, 2006
Animal Figura Humana
Vahni Capildeo, Person Animal Figure, Landfill, Norwich, 2005
Trad.: a minha
segunda-feira, novembro 27, 2006
Cesariny morreu, viva Cesariny
Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Ísis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco e flecha negro e azul do vento.
(...)
domingo, novembro 26, 2006
Fidel

Estava uma noite limpa, de outros tempos, pré-revolucionária. A minha posição no partido dependia da minha performance dessa noite. Tinha as mãos suadas, sentia o peso dos olhares críticos dos camaradas apontados para mim. Mas não tinha nada a temer. Apesar de ter pé boto, já dera provas de ser um excelente dançarino. Dominava as sombras elegantes do tango e soltava suspiros dos meus parceiros só com o olhar. Herdara estrabismo do meu avó paterno, o meu pai só conheceu uma mulher, a minha mãe - o encanto pulou uma geração.
Chegara a nossa vez. Fidel voltou-se para mim e perguntou:
- O menino...dança?
Nesses tempos, Fidel usava brilhantina made in USA, embora ostentasse já umas fartas barbas escuras. Ao contrário do que muita gente pensa, era um verdadeiro cavalheiro e dançava melhor do que o imberbe Rodolfolziño. Nos braços dele, senti-me conjugal, amparado. Compreendo agora a sua magia contagiante, o seu carisma entre as massas. Fidelidade. Era esse o seu segredo. As palmas no final despertaram-me e, pela primeira vez, senti-me homem. Daqueles, de barba rija.
quarta-feira, novembro 22, 2006
A manta
segunda-feira, novembro 13, 2006
Hoje
Calcei-me
Aparei a barba
Flexionei
Tomei café
Tomei um duche
Acordei
Saí
Vesti-me
Não necessariamente
por esta
ordem.
Chego à altura de poder cair
E então eu adoro. (...)
Clarice Linspector, in A Paixão Segundo G.H.
Relógio D'Água
domingo, novembro 12, 2006
quinta-feira, novembro 09, 2006
Lua cheia
*É mais difícil escrever um texto intencionalmente mau do que um elaborar um texto que possa ser considerado bom (N.E.).
quarta-feira, novembro 08, 2006
Lady Godiva do 2º Frente

Pela noitinha, a minha vizinha do 2º Fr gosta de passear nua pelos corredores e escadas do prédio, enquanto canta alegremente o Greensleeves. O Peeping Tom desta história (o senhor reformado da EDP do 2º Esq) disse-me que ela vive da pensão do ex-marido e que é mesmo ruiva. Porém, o senhor reformado da EDP ainda não ficou cego.
sábado, novembro 04, 2006
tenho uma cabeça

Paul Klee
tenho uma cabeça que me diz todos os dias que prescinde de mim, que já não depende de mim, que a sua matéria-prima é agora a chuva fria dos cães vadios, o cio, a vida pela vida, o sol que amarelece cartas de trunfo dos velhos-jardins, a morte seca que consome devagarinho, a cegueira dos que não querem ver, trabalho, trabalho, todos os dias, até ao último comprimido e, à noite, o sorriso desdentado de crianças que se fazem à velocidade do tédio do amor, la petite mort, os olhos fechados da minha avó, o gesto, a sopa que fumegava da enorme tigela e que agora é minha por direito, o vermelho lobo que traz paz.
quarta-feira, novembro 01, 2006
54-30-IN
54-30-IN intermitente na cabeça.
quinta-feira, outubro 26, 2006
Wolf Like Me
Abri um grave precedente ao introduzir este vídeo neste blog.
Não resisti - arranjem uma maneira de me perdoar.
terça-feira, outubro 24, 2006
O prato de leite coalhado
Pedro e o Lobo (Prokofiev) pelo Theatre des Ombres
Quando um gatarrão amarelo e branco, emprestado e pelado, se disfarça de robin de bosques, pega sorrateiramente num cabide (ou cruzeta, dependendo da vossa longitude), mia ameaças de morte enquanto faz jogos de sombras na parede com a cauda... não há muito que um lobo possa fazer senão puxar os lençóis, virar-se para o outro lado e tentar dormir.
segunda-feira, outubro 23, 2006
As romãs
Pelo excesso dos grãos de ouro,
Eu vejo reis, todo um tesouro
Nascer de suas descobertas!
Se os sóis de onde ressurgis,
Ó romãs de entrevista tez,
Vos fazem, prenhes de altivez,
Romper os claustros de rubis,
E se o ouro seco cede enfim
Ante a demanda ainda mais dura
E explode em gemas de carmim,
Essa luminosa ruptura
Faz sonhar uma alma que há em mim
De sua secreta arquitectura.
Paul Valéry
terça-feira, outubro 17, 2006
segunda-feira, outubro 16, 2006
mudança
não, ainda não me mudei completamente.
quinta-feira, outubro 12, 2006
double agent
segunda-feira, outubro 02, 2006
Brilho
quarta-feira, setembro 27, 2006
Ícaro

Brueghel
Quando Auden escreveu sobre Ícaro
Olhou para o quadro de Brueghel numa neblina emoldurada de museu.
Não expôs os seus pupilos ao brilho directo da luz,
E não abriu as suas narinas ao odor do sábio,
E não se desnudou pelo toque de um raio que droga cada emoção
Que se derrete e escorre como cera.
E agora, aquele jovem rapaz que cai do céu:
Estive lá, em Creta, e vi com os meus próprios olhos
e como o camponês que continua a lavrar
e como cada barco elegante que apanhei durante a minha viagem
e como a oliveira que plantei
e como o riacho que inundei
e como a rocha que endureceu o meu coração,
não prestei atenção ao seu sofrimento,
eu também falei:
“ninguém pode saber – leia-se compreender –
aquilo que fazemos debaixo do sol".
quarta-feira, setembro 20, 2006
O poema disse:
O poema disse: "Nasci na mata
na boca de um caçador.
Fui criado por um pescador
numa cabana.
Ainda assim nunca trabalhei, apenas canto.
Cantei primeiro nas cortes:
depois fui roliço e formoso
mas agora ando pelas ruas,
meio esfomeado"
(...)
"Gandhy and Poetry", K. Satchidanandan
Trad. Pedro Amaral
terça-feira, setembro 05, 2006
Cebola

A cebola é outra coisa.
Planta sem intimidade.
Retintamente cebola
à última cebolidade.
Acebolada por fora,
cebulona no tutano,
poderia entra em si
sem se causar qualquer dano.
Em nós selva e estranhamento,
que uma pele mal sustenta
o nosso inferno uterino,
anatomia violenta,
e, na cebola, cebola,
um lisíssimo intestino.
La muitas vezes nua,
Até ao miolo mais fino.
Cebola ser sem contrários,
cebola bem sucedida,
na maior a mais pequena,
uma na outra metida,
e na seguinte outra ainda,
uma quarta e uma quinta.
Fuga em espiral para o centro,
eco no coro à medida.
Cebola eu bem te compreendo,
mais belo ventre do mundo,
tu própria em tuas auréolas
do teu sucesso profundo.
Em nós gorduras e nervos,
mucos, veias e recessos,
e ao kitch do ser perfeito
é-nos vedado o acesso.
Wislawa Szymborsja, trad. Júlio Sousa Gomes,
in Paisagem com Grão de Areia, Relógio d'Água, 1998
sábado, agosto 19, 2006
As baratuchas tintas leguminosas de Van Gogh

(...) As baratuchas tintas leguminosas de Van Gogh desgraçadamente compradas por vinte sous.
Van Gogh escarra sangue, como suicida dos quartos mobilados. As tábuas do chão no café nocturno inclinam-se e fluem como calha em fúria eléctrica. A estreita tina do bilhar lembra o cepo do caixão.
Nunca vi um colorido como este.
E que paisagens - de hortas e revisores de comboio! Acabaram de limpá-las de fuligem dos comboios suburbanos com um trapo molhado.
As telas de Van gogh, que a omoleta da catástrofe lambuzou, são didácticas como material escolar - mapas da escola Berlitz. (...)
"Guarda Minha Fala Para Sempre", Ossip Mandelstam
Assírio & Alvim
sexta-feira, agosto 11, 2006
Voz
Penhoraram a minha voz
Sempre fui de poucas falas
Sempre adoptei a voz passiva:
A avó do Capuchinho foi comida pelo lobo
Devolveram-me a minha voz
Mal tratada e em tom mais grave
Gesticulo e esperneio
Durmo nu de cachecol.
quarta-feira, agosto 09, 2006
Dar-se
sexta-feira, julho 28, 2006
sábado, julho 22, 2006
Vaga de calor
Faz-se à estrada, não olha para trás.
quinta-feira, julho 20, 2006
Cantar de Amigo
À beira do rio fui dançar... DançandoMe estava entretendo,
Muito a sós comigo,
Ouando na outra margem, como se escondendo
Para que eu não visse que me estava olhando,
Por entre os salgueiros vi o meu amigo.
Vi o meu amigo cujos olhos tristes
Certo se alegravam
De me ver dançar.
Fui largando as roupas que me embaraçavam,
Fui soltando as tranças... Olhos que me vistes,
Doces olhos tristes, não no ireis contar!
Que o amor é lume bem eu sei... que logo
Que vi meu amigo
Por entre os salgueiros ,
Melhor eu dançava, já não só comigo
Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,
Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.
Que Deus me perdoe, que os seus olhos tristes
Assim ofertava
Minha formosura!
Se não fora o rio que nos separava,
Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,
Nem eu me amostrara tão de mim segura.
José Régio, Música Ligeira
Obrigado.
segunda-feira, julho 17, 2006
As Musas Cegas
Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito
nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. - E é uma pedra celeste.
Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.
Herberto Helder
quarta-feira, julho 12, 2006
Eu
terça-feira, julho 11, 2006
Síndrome do Emigrante
Daquele Portugal antes da C.E.E., das bigodaças fartas dos homens e do rouge excessivo das mulheres. Das botas de borracha coloridas das crianças e dos muitos cães vadios que enchiam as cidades.
(alguém pediu-me um poema, lamento)
domingo, julho 09, 2006
Morte
Ajuda-me a manter-me vivo.
quinta-feira, julho 06, 2006
Águas Furtadas
Entretanto, assista ao primeiro vídeo de promoção deste número nove aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=MZ4rtoXgMfw
terça-feira, julho 04, 2006
Ordem
Tenho de manter a ordem, mortificar o jejum moral e estar atento às fraquezas dos outros para importar os seus infernos e colá-los como lembretes nas minhas mãos.
Sou o actor e o espectador mais fiel e mais descontente de mim mesmo.
domingo, julho 02, 2006
Boa tarde
Dois namorados despedem-se demoradamente, cá em baixo, na rua. Afastam-se por fim, ela olha para trás, mas ele segue em frente.
Na minha pequena varanda, apanho os últimos raios de sol desta boa tarde e sorrio sem motivo.
Aguardo visitas. A limpeza da casa pode ficar para depois.
terça-feira, junho 27, 2006
Um ano de vida
De poesia - mas o que é a poesia?

Alguns - quer dizer nem todos. Nem a maioria de todos, mas a minoria. Excluindo escolas, onde se deve os próprios poetas, serão talvez dois em mil.
Gostam -mas também se gosta de canja de massa, gosta-se da lisonja e da cor azul, gosta-se de um velho cachecol, gosta-se de levar a sua avante, gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia - mas o que é a poesia? Algumas respostas vagas já foram dadas, mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro como a um corrimão providencial.
Wislawa Szymborska
terça-feira, junho 20, 2006
quarta-feira, junho 14, 2006
Confessionário
and sometimes I think
she could be jiving too"
B.B. King
Depois de um destes dias de trabalho perfeitamente áridos e inconsequentes, senti que estava em falta para comigo mesmo e achei que deveria cumprir um dos sagrados sacramentos de deus: a Penitência ou Confissão. Há já algum tempo que não me penitenciava, era chegada a hora.
Além de ser muito mais barato de que ir a um psi, o sigilo sacramental não permite ao pastor divulgar os nossos pecados ao resto da comunidade, o que já não acontece com os psi's que devem gozar à brava quando resolvem descomprimir e trocar entre si as historietas dos seus clientes.
Depois de relatar os meus pecados por ordem de gravidade durante seis, sete minutos, houve um momento de silêncio por parte do meu confessor que me pareceu propositado. De repente, suspira e exclama solenemente:
- Eu amo-te, meu filho.
Mandou-me rezar 30 padres e 50 avés durante 5 dias para que deixasse de pensar em coisas absurdas e desnecessárias.
- Deves ir ao Seu encontro, não deves esperá-Lo.
Deu-me no fim um papel com uma morada em que dizia "LBV - aceitam-se voluntários". Abençoou-me, pigarreou e mandou-me embora. Antes de sair da Igreja, parei no altar de Sta. Teresinha, fascina-me a sua beleza púdica, o seu olhar inocente. Deposito sempre uma nota de dez euros na respectiva caixa de esmolas. Os querubins a seu lado piscaram-me logo o olho e sorriram como os miúdos que pedem em nome do Sto. António.
Bem, eu já tenho um LBV (Late Bottled Vintage) da Dow's de 1999, um bom ano. Acho que vou "passar" a última sugestão do seu padre e observar apenas a primeira, orar como um perdido nestas noites de insónia para depois sonhar com a minha Sta. Teresinha.
segunda-feira, junho 12, 2006
Gostos e Desgostos
sexta-feira, junho 09, 2006
Um dia
A lua é cheia, mas a noite é vazia. Ouço homens do lixo e cães vadios a ladrarem. Jogo sozinho às escondidas na minha toca. Canso-me. Tenho um cubo mágico no lugar do coração que não pára de rodar. O lobo conta 96 carneiros e adormece por fim.
quarta-feira, junho 07, 2006
Fraco mas forte

Antônio Hélio Cabral
Fraco mas forte
Nada na mão
algo na v'rilha
remancho as noites
e troto os dias
entre tabaco
viris bebidas
fraco mas forte
de muitas vidas
(que eu já dormi
co'as duas mães
e as duas filhas
que vão à missa
com três mantilhas)
Nada na mão
algo na v'rilha
sofro comigo
luta intestina
(ao bem ao mal
a mesma alpista)
bebo contigo
cerveja uísqui
p'ra que se veja
mais rubra a crista
Nada na mão
algo na v'rilha
encontro a morte
no meio da vida
morte bonita
nada aflita
(ou é da minha
tão fraca vista?)
e tenho sorte
Nada na mão
algo na v'rilha
invisto contra
o zero puro
da minha vida
e duro, duro!
Alexandre O´Neill, in Poesias Completas
quarta-feira, maio 31, 2006
Vênus
Não tenho braços tal como a Vênus de Milo
Viro-me com alguma dificuldade e indolência
E não consigo ver as outras estátuas atrás de mim
Meus lábios de pedra, selados por castigo
Quero gritar como todas as mulheres
mas deus e a cidade não deixam.
Entre as minhas pernas
Tecidos rugosos cobrem
Desejo e frustação
O mais forte vencerá no fim.
Poeta/hamster
Os poetas são como aqueles hamsters naquelas gaiolas com cilindros giratórios: se param, morrem.As mães hamster comem os seus filhos quando estão feridos ou doentes e sabem que não vão sobreviver. Também ocorre em situações de stress, insegurança, em ambientes não adequados para construir o ninho, etc. Não o fazem por ódio, mas por precaução e instinto.
Os hamsters e os poetas têm um antepassado comum. Há relatos de poetas que tentam a concepção, mas não conseguem dar à luz aquilo que mais desejam.
No entanto, não podem simplesmente parar e, assim, sofrem anos a fio presos nas suas gaiolas.
quinta-feira, maio 25, 2006
A/C da minha mana
giroflé, giroflá,
fui ao jardim da Celeste,
giroflé, flé, flá
O que foste lá fazer?
giroflé, giroflá,
O que foste lá fazer?
giroflé, flé, flá.
Fui lá buscar uma rosa,
giroflé, giroflá,
Fui lá buscar uma rosa,
giroflé, flé, flá
Para quem é essa rosa,
giroflé, giroflá,
Para quem é essa rosa,
giroflé, flé, flá.
É para a menina Joana,
giroflé, giroflá,
É para a menina Joana,
giroflé, flé, flá











