sexta-feira, março 16, 2007

As Ites e o Regulamento


Enrico Baj

Os ricos não dormiam nem comiam no quartel. Tinham quartos alugados pela cidade, e regalavam-se com bifes e batatas fritas, e muito vinho verde, nas mesas trôpegas e sujas das tascas da avenida, sob nuvens de solícitas moscas. As minhas posses não davam para tal libertação; e, porque precisava de sossego para a minha cabeça e para trabalhar nas traduções que fazia (no quartel não havia uma única sala onde se estivesse, e as casernas, iluminadas por tímidas lâmpadas, eram, depois do "recolher" e do "silêncio", anfiteatro de competições desportivas quanto às capacidades gasoso-intestinais, ou teatro de assaltos de pederastia galhofeira às camas dos tidos por "maricas" - assaltos que degeneravam em batalhas tremendas a travesseiro e cinturão de couro -, quando não eram apenas cenário de pacíficas exibições de strip-tease que culminavam em inocentes concursos de instrumental genésico, em que o vencedor era necessariamente sempre o mesmo indivíduo, que já viera para o quartel com a alcunha de "tripé", tendo sido mesmo uma vez convidado a mostrar-se na Sala dos Oficiais), eu requerera para dormir fora.

Jorge de Sena, "Os Grão-Capitães",
Edições 70, 1976

quinta-feira, março 15, 2007

As Bodas de Cana(dá)

Levou algum tempo, mas converti-me, por fim. Vi a luz no seu Evangelho e na fé dos seus cordeiros.

Fogo redentor

Já está. Não sentem o cheiro a queimado?

quarta-feira, março 14, 2007

Despedimento colectivo


Philip Guston

Ontem de manhã, o homem emborcou metade da garrafa de whisky que tinha reservada para ocasiões especiais, abriu a porta do seu gabinete, desceu a escadaria e despediu toda a gente num acto tresloucado. Confessou aos berros que desejava sangue novo e que já não gostava de nós. Em seguida, chamou o chauffeur, meteu-se no carro e dirigiu-se para a praia que fica do outro lado da rua. Arregaçou as calças, correu para a água e foi molhar os pés.
- Sim... Agora nada mais há a fazer, balbuciou a meia voz para as gaivotas.
Eu consegui safar-me, estava no banheiro* na altura. Hoje, encontro-me sozinho no escritório a pensar na bela fogueira que todos estes dicionários e arquivos dariam no meio deste moderno open space.

*Nunca antes tinha escrito as palavras banheiro ou kiwis num post.

segunda-feira, março 12, 2007

Now and again


D. H. Lawrence

All my body springs alive,
And the life that is polarised in my eyes,
That quivers between my eyes and mouth,
Flies like a wild thing across my body,
Leaving my eyes half-empty, and clamorous,
Filling my still breasts with a flush and a flame,
Gathering the soft ripples below my breast
Into urgent, passionate waves,
And my soft, slumbering belly
Quivering awake with one impulse of desire,
Gathers itself fiercely together;
And my docile, fluent arms
Knotting themselves with wild strength
To clasp—what they have never clasped.
Then I tremble, and go trembling
Under the wild, strange tyranny of my body,
Till it has spent itself,
And the relentless nodality of my eyes reasserts itself,
Till the bursten flood of life ebbs back to my eyes,
Back from my beautiful, lonely body
Tired and unsatisfied.

D. H. Lawrence

quinta-feira, março 08, 2007

O pequeno tirano


Corneille

Deixei de ser dono do meu próprio tecto a partir do momento em que caí na tentação de acolher no meu covil um pequeno mamífero de pupilas dilatadas e patas almofadadas, especialmente concebidas para ataques nocturnos, silenciosos e fulminantes. Domínio subtil e perverso. Desci na cadeia alimentar de forma humilhante. O pequeno tirano anda à solta pelos corredores e tenho a certeza de que vai lacerar-me quando estiver a dormir o sono dos justos. E o olhar da criatura? Mata-me, mata-me!

Dia Intern. da Mulher


No dia de hoje, em Itália, os homens oferecem acácias às mulheres. No Reino Unido, as mulheres convidam os seus colegas para almoçar.
É feriado em alguns países, ex-repúblicas da vermelha URSS, bem como em Cuba, Mongólia, China (só meio dia, claro) e Vietname. Haverá algum denominador ou causa comum aqui que me esteja a escapar?

terça-feira, março 06, 2007

Café Planeta Azul

"A Náusea" continua
no pacote de açúcar
a que chamo agora
de pacote de açúcar
tocam-me no ombro
alguém me confunde
com o filho de alguém
sou atento e educado
a pessoa vai-se embora
os dois homens
na mesa junto à janela
são de Lviv
pedem húngaros para levar
em língua recém-chegada
estepes e gasodutos convergem
no café Planeta Azul
inesperada mudança de canal
o americaníssimo Al Gore
entra no café Planeta Azul
"não entrem em pânico,
tudo está predestinado
Calvino tinha razão
resíduos e calotes polares
derretidos à vossa porta"
esfrego Hand e Nagel Balm
mit Aloe Vera
für schöne Hände
und kräftige Nägel
nas mãos
levanto-me
ainda não
levanto-me
dois cães vadios
patrulham a rua.

quinta-feira, março 01, 2007

O blog do sr. António Sousa Homem

É raro, mas acontece - calhei de tropeçar neste blog e fiquei algum tempo estendido no chão, pernas abertas e olhos esbugalhados:

De alguma maneira, o velho Doutor Homem, meu pai, incorporou todos os defeitos das burguesias e do racionalismo do Porto, moldado pela penumbra do céu e pela chuva que caía nas suas ruas de granito escuro. A sua vida intelectual era um luxo permitido pela família; a moeda de troca eram viagens e temporadas de preguiça. As viagens levavam-nos a hotéis e cidades com museus, lojas e restaurantes, em Espanha, França e – por duas vezes – em Inglaterra; a preguiça depositava-nos em Ponte de Lima para um a dois meses de Verão, onde as tardes eram invadidas pelos seus discos e pela desarrumação na biblioteca do velho casarão miguelista – onde se misturavam, nos sofás e nos cadeirões, jornais da época e livros que convidavam à sesta. Se me contagiasse, algum dia, a tentação (cada vez mais frequente nos portugueses) de escrever um romance, eu teria nos anos de ouro de Ponte de Lima um cenário atraente e luminoso.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Confessionário


Marsden Hartley

Assumo sempre a minha sexualidade de chinelos e em dias ímpares. Tenho mais ralações sexuais do que relações e, já que pergunta, tenho quase a certeza que vou casar por Amor, mais cedo ou mais tarde.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Pai

metade do corpo palpita estilhaços
a outra decompõe-se em sons gelados e secos
ainda se segura, curvado e inquieto

sapatos escuros espalhados pelo quarto
vê as paredes que lhe deram os filhos
e agora pede que o deixem em paz

encosta-se na coincidência dos dias
e dispara palavras bastardas de agonia
deixa um rasto de abandono
por portas entreabertas

o tempo acumula-se no pó
o Grande Aposento Real
insulta a caixa das cores
acha-se o último dos duros

tapa as memórias nas paredes
sente o pé dormente
pede algo a alguém
antes de fechar os olhos

não dorme
acorda
outra vez
o ultramar de sempre apodrece-o
o dia espera por ele,
outra vez.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Pessoal intransferível


Martin Kippenberger

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. sabendo: perigoso, divino, maravilhoso. Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena, etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, "herdeiro" da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

Torquato Neto, in Os últimos dias de Paupéria
Editora Eldorado, 1974

sábado, fevereiro 24, 2007

Pedro e o Lobo na Casa da Música


Pedro e o Lobo
- Orquestra Nacional do Porto
Com a projecção do filme de Suzie Templeton
24 de Fevereiro, 21h - Casa da Música




Por ocasião da abertura do festival de cinema Fantasporto, a Casa da Música propõe um programa em torno da banda sonora e da música para a grande tela. De salientar a estreia ibérica do filme de animação "Pedro e o Lobo" de 2006, da realizadora Suzie Templeton galardoada pela BAFTA (British Academy of Film and Television Arts). Com a etiqueta da Breakthru Films, trata-se de uma interpretação intrigante e fantástica da conhecida narrativa infantil e que será acompanhada pela ONP na interpretação do clássico de Sergei Prokoviev. O filme teve, desde o início, a colaboração do maestro Mark Stephenson, que dirigiu a sua première no Royal Albert Hall em 2006.

(Programa realizado no âmbito do 27º Festival Internacional do Cinema do Porto - Fantasporto)

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

W.H. Auden - Centenário do Nascimento


W. H. Auden

Epitáfio para um Tirano

Perfeição, de um certo tipo, era aquilo perseguia
E a poesia que inventou era fácil de entender;
Conhecia a estupidez humana como a palma da mão
E interessava-se bastante por exércitos e frotas;
Quando ria, senadores respeitáveis morriam de tanto rir,
E quando chorava, criancinhas morriam nas ruas.

W. H. Auden, in "Another Time",
Tradução: a minha


Celebra-se hoje (21/02/2007) o centenário do nascimento de Auden. Tal como o próprio Auden em “Under Which Lyre”, os seus admiradores gostam de se ver como filhos de Hermes (e não de Apolo), não apreciando particularmente a realização de eventos especiais. Porém, a BBC irá dedicar-lhe algum tempo de antena.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Os Patinadores


Robert Ryman


É um dia de sol
e eu devia tomar balanço.
Ganho coragem, então.
Respirar fundo, escrever.
Não está ninguém a olhar-me.
Os patinadores dão um salto
no ar.

Richard Wagner, "Castanhas Quentes e outros poemas"
Quetzal Editores

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Trabalho

De volta às galés.
Escondi-me debaixo da bancada de trabalho, há migalhas e más traduções espalhadas pelo chão. Ainda não deram pela minha falta, o que é bom sinal. Faço tricot com alguns caracteres enquanto espero pelo toque da sirene. Encontrei esta inscrição no tampo da bancada:

Por vezes o gelo é vermelho e um fruto
sem casca parece-se com a lua suspensa.
Perdoa-me por não me explicar melhor.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

dores de costas

as dores de costas voltaram com as chuvas. não são agudas, mas incomodam-me. atacam-me como se fossem ovelhas a ruminarem-me a coluna e o dorso. o meu sangue de inverno é mais diluído, penso pouco, faço ainda menos. deito-me cedo e sonho com cantos húmidos e bafientos de hospitais. as camas de hospital fascinam-me, parecem altares brancos. acordo cedo, atordoado com as palmas dos espectadores dos meus sonhos. fazem um semi-círculo à volta da minha cama nas madrugadas de trovoada e parecem gostar daquilo que vêem.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Na Colina do Instante


Isidre Nonell Monturiol

Há um cheiro de absinto quando os capricórnios
da casca apodrecida dos carvalhos velhos
iniciam seu voo pelo mês de junho
Colhemos avelãs ao longo do jardim
onde as tílias ao vento espalham o aroma
A frescura da fruta vence o sol rasante
Somos quem fomos caminhamos tão de leve
temos tamanha dignidade de crianças
que nem a morte aqui de nós se lembraria
nem mesmo a monstruosa flor de outros destinos
nem qualquer outra das repúblicas do ódio
encresparia o calmo mar do fim da tarde
É à celebração sagrada do acaso
à festa da essência mineral do mundo
que o sol procede no segredo deste templo
A tarde é tudo e tudo são caminhos
Somos eleitos cúmplices da hora
Aqui não chega o desatino do verão
esqueço a aversão dos meus antepassados
e levanto-me sobre a derradeira luz
Por instantes sou eu ninguém morreu aqui
ó minha vida esse processo que perdi


Ruy Belo, Todos os Poemas
Assírio & Alvim

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Novena


Alexei von Jawlensky

Voltaria a vender a minha alma se pudesse. Sou um homem de fracos recursos, apurei a ladainha de me lamentar por tudo e por nada. Conto os meus medos e fraquezas durante as minhas intermináveis novenas em nome de Simone Weil. Vendo-os a quem oferecer o melhor preço. Sem garantias, é pegar ou largar.