sexta-feira, fevereiro 09, 2007
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
dores de costas
as dores de costas voltaram com as chuvas. não são agudas, mas incomodam-me. atacam-me como se fossem ovelhas a ruminarem-me a coluna e o dorso. o meu sangue de inverno é mais diluído, penso pouco, faço ainda menos. deito-me cedo e sonho com cantos húmidos e bafientos de hospitais. as camas de hospital fascinam-me, parecem altares brancos. acordo cedo, atordoado com as palmas dos espectadores dos meus sonhos. fazem um semi-círculo à volta da minha cama nas madrugadas de trovoada e parecem gostar daquilo que vêem.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Na Colina do Instante
Isidre Nonell Monturiol
Há um cheiro de absinto quando os capricórnios
da casca apodrecida dos carvalhos velhos
iniciam seu voo pelo mês de junho
Colhemos avelãs ao longo do jardim
onde as tílias ao vento espalham o aroma
A frescura da fruta vence o sol rasante
Somos quem fomos caminhamos tão de leve
temos tamanha dignidade de crianças
que nem a morte aqui de nós se lembraria
nem mesmo a monstruosa flor de outros destinos
nem qualquer outra das repúblicas do ódio
encresparia o calmo mar do fim da tarde
É à celebração sagrada do acaso
à festa da essência mineral do mundo
que o sol procede no segredo deste templo
A tarde é tudo e tudo são caminhos
Somos eleitos cúmplices da hora
Aqui não chega o desatino do verão
esqueço a aversão dos meus antepassados
e levanto-me sobre a derradeira luz
Por instantes sou eu ninguém morreu aqui
ó minha vida esse processo que perdi
Ruy Belo, Todos os Poemas
Assírio & Alvim
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Novena

Alexei von Jawlensky
Voltaria a vender a minha alma se pudesse. Sou um homem de fracos recursos, apurei a ladainha de me lamentar por tudo e por nada. Conto os meus medos e fraquezas durante as minhas intermináveis novenas em nome de Simone Weil. Vendo-os a quem oferecer o melhor preço. Sem garantias, é pegar ou largar.
domingo, fevereiro 04, 2007
Buganvília
- Pensa numa palavra, rápido!
- ...D'accord, ça y est!
- A palavra é clausura.
- Non.
- De certeza?
- Non, desolée.
- Pensa noutra.
- ...
- A palavra é agora buganvília.
- Très bien, c'est ça.
- ...D'accord, ça y est!
- A palavra é clausura.
- Non.
- De certeza?
- Non, desolée.
- Pensa noutra.
- ...
- A palavra é agora buganvília.
- Très bien, c'est ça.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Albânia

nesses dias todos nós já tinhamos ouvido falar da Albânia não havia ninguém que não soubesse era uma luz brilhante do socialismo europeu a outra luz brilhante eramos nós. nesses dias de Beijing a Tirana, todos nós sabíamos a canção com um amigo que conhece o teu coração, a distância não pode separar-vos. só mais tarde é que percebi que estas linhas eram do poeta Wang Bo da dinastia Tang, ele morreu há muito tempo, nunca esteve em Tirana claro, não sabíamos nada desse sítio: foi um grande pequeno amigo nosso, Wei Guo, que uma vez nos disse misteriosamente: a Albânia é como o reino chinês de Yelang. Lembro-me disto e garanto: foi em 1974 e tínhamos acabado de fazer 12 anos. achámos aquilo reaccionário.
Yang Li
Trad. (do inglês): a minha
terça-feira, janeiro 30, 2007
As palavras
Em Julho do ano passado, algumas palavras enclausuraram-se no meu quarto de hóspedes em forma de protesto. Pediam-me coisas estranhas e impossíveis de obter como "óculos de ver" ou "fruta da época".
Ouço ruídos de madrugada, parece um soluçar, uma lamúria que se escapa por debaixo da porta. Não posso garantir que sejam elas, porém.
Nunca mais entrei nesse quarto desde então.
Ouço ruídos de madrugada, parece um soluçar, uma lamúria que se escapa por debaixo da porta. Não posso garantir que sejam elas, porém.
Nunca mais entrei nesse quarto desde então.
sábado, janeiro 27, 2007
Jogos Florais

Oscar Araripe
I
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já vira vinho,
vira directo vinagre.
II
Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
erra e efeitos de vinho
o poeta sai de fininho.
(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)
António Carlos Brito
quinta-feira, janeiro 25, 2007
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Trabalho
Não há qualquer dignidade no trabalho: esta é a cantilena mais ignóbil de sempre. O molde é muito semelhante para quase todos aqueles que têm de se sujeitar a esta trituração diária até que a validade da sua vida útil se expire. Deixa-se de pensar, imbeciliza-se. As muralhas que construimos inconscientemente naqueles fins de semana ociosos são derrubadas ao longo dos dias (in)úteis. O ciclo repete-se. As segundas-feiras são dias maus, entorpecedores, pois claro.
Trabalho numa fábrica de fiação de palavras, supervisiono um sistema de linha de montagem verbal. Vou apresentar amanhã a minha carta de demissão ao sr. Rothschild. Já comprei uns óculos de aviador e vou construir um aeroplano. Mãos à obra, mas em nome do prazer.
Trabalho numa fábrica de fiação de palavras, supervisiono um sistema de linha de montagem verbal. Vou apresentar amanhã a minha carta de demissão ao sr. Rothschild. Já comprei uns óculos de aviador e vou construir um aeroplano. Mãos à obra, mas em nome do prazer.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Tempo Insone
terça-feira, janeiro 16, 2007
Noite de núpcias

Edward Burra
Mais uma vez: odiá-lo seria atribuires-lhe importância. Logo, a saída mais fácil para ti será amá-lo. Não são duas faces da mesma moeda, estás redondamente enganada. A indiferença é um equilíbrio precário, difícil de manter. O verdadeiro conhecimento provém do amor cego e trágico. Eu próprio abro-te as portas e estendo-te o tapete vermelho. Deixa de ser cordial e obsequiosa. Rasga-lhe a camisa e usa o cinto. Deixa-o ser o vilão. Não queiras dominá-lo, lambe-lhe antes as feridas. Não o respeites, porém. Se o fizeres, jamais te respeitará.
Já tenho o meu lugar cativo, prometo-te que fico até ao fim.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
Catamarã

Rothko
Fiz uma cruz com giz
no sítio onde te deves sentar.
Podes compensar a tua ausência
com o teu peito quente e cobiçado
o teu enfado é a minha medida:
Trouxeste a escova de dentes?
Guio-me pela estrela
Que paira sob a tua cabeça.
Mal viro as costas
fazes caretas
rodas o colar de pérolas
que o velho te deu.
O teu pai era um homem bom
sofria de prisão de ventre
mas foi o mar que o levou.
Tinha grandes buracos negros
em vez de olhos,
era hábil com as mãos
e fiel devoto da Virgem.
Dás nomes às gaivotas
e segredas-lhes uma melodia.
Vejo Neptuno ao longe
a acenar com o tridente.
Caímos os dois no velho engodo,
qual Ciência da Navegação?
Antecipo-me a ti
e pego na garrafa.
Cobres-te com o poncho negro,
fechas os olhos salgados.
Digo-te agora aquilo
que nunca te disse antes.
terça-feira, janeiro 09, 2007
Uma Navalha
Em silêncio
observo um amolador
a afiar uma navalha.
"Então, amigo,
não se trabalha hoje?"
"Sim, trabalho
mas hoje
apetece-me
olhar para um amolador
a afiar uma navalha.
"Baixo a cabeça
e torno-me num pedaço
preto na rua,
a olhar todo o dia
até que o dia termine."
Yukio Tsuji
Tradução (inglês): a minha
observo um amolador
a afiar uma navalha.
"Então, amigo,
não se trabalha hoje?"
"Sim, trabalho
mas hoje
apetece-me
olhar para um amolador
a afiar uma navalha.
"Baixo a cabeça
e torno-me num pedaço
preto na rua,
a olhar todo o dia
até que o dia termine."
Yukio Tsuji
Tradução (inglês): a minha
terça-feira, janeiro 02, 2007
A invenção de Morel
A manipulação destas ideias provocava-me uma euforia crescente. À noite sonhei o seguinte: estava num manicómio. Depois de uma longa consulta (o processo?) com um médico, a minha família levara-me para ali. O director era Morel. Por momentos, julgava estar no manicómio; por momentos, era eu o director do manicómio.
Não acho indispensável tomar um sonho pela realidade, nem a realidade por loucura. (...)
Não acho indispensável tomar um sonho pela realidade, nem a realidade por loucura. (...)
A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares
Trad.: Miguel Serras Pereira
Antígona
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Entre os meus dedos

Antonin Artaud
Entre os meus dedos
Existe um peso de uma bola de chumbo
Uma luz escura que seduz
Um pedaço de sombra que diz
- Adeus
À Alma,
À Inocência,
À mesma mão
Que me foi retirada
Cedo.
És a ave negra que esgaravatou
És a sombra que desceu.
A vida é para ser vivida
Alguém
Chora
Alguém
Dança
Alguém
Perdoa
Alguém
Diz
Improvisa e canta,
Não sabes fazer melhor.
Brinda e desafina,
Pior não deves ficar.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
SEM FORMA
Se houvesse só isto,
uma árvore na qual uma estrela dorme,
a catedral vazia de Chartres
e um guia impaciente
e mulheres esperando pelo comboio
e música fria como a saudade?
Se houvesse só isto,
governos alugando ministros
e ministros alugando polícias
e um anjinho
beijando os seus lábios de cera na cama
e dissidentes protestando
e manifestantes marchando
com crianças sorridentes
a música fria como a saudade
e a força que nunca dorme?
(...)
Adam Zagajewki
Trad.: Jorge Sousa Braga
uma árvore na qual uma estrela dorme,
a catedral vazia de Chartres
e um guia impaciente
e mulheres esperando pelo comboio
e música fria como a saudade?
Se houvesse só isto,
governos alugando ministros
e ministros alugando polícias
e um anjinho
beijando os seus lábios de cera na cama
e dissidentes protestando
e manifestantes marchando
com crianças sorridentes
a música fria como a saudade
e a força que nunca dorme?
(...)
Adam Zagajewki
Trad.: Jorge Sousa Braga
terça-feira, dezembro 19, 2006
Dependência
Voltaire dizia que a dependência é a raíz de todos os males, não a desigualdade. Um cavalo não deve nada a um cavalo, um cão não deve nada a um cão. Quando o outro desvia as águas das minhas terras para as suas, assume uma posição de domínio sobre mim. Há algum mérito temporário aqui, a plantação do fruto da dependência. Combato tendências imperialistas com algum cinismo (chegando até a piscar o olho), enfrento os Gengis Cães com tácticas de guerrilha. Mas, iniciadas as hostilidades, já não importa quem ganha, porque todos perdem no final, como é bom de ver.
sexta-feira, dezembro 15, 2006
How To Get On In Society

Phone for the fish knives, Norman
As cook is a little unnerved;
You kiddies have crumpled the serviettes
And I must have things daintily served.
Are the requisites all in the toilet?
The frills round the cutlets can wait
Till the girl has replenished the cruets
And switched on the logs in the grate.
It's ever so close in the lounge dear,
But the vestibule's comfy for tea
And Howard is riding on horseback
So do come and take some with me
Now here is a fork for your pastries
And do use the couch for your feet;
I know that I wanted to ask you-
Is trifle sufficient for sweet?
Milk and then just as it comes dear?
I'm afraid the preserve's full of stones;
Beg pardon, I'm soiling the doileys
With afternoon tea-cakes and scones.
John Betjeman
As cook is a little unnerved;
You kiddies have crumpled the serviettes
And I must have things daintily served.
Are the requisites all in the toilet?
The frills round the cutlets can wait
Till the girl has replenished the cruets
And switched on the logs in the grate.
It's ever so close in the lounge dear,
But the vestibule's comfy for tea
And Howard is riding on horseback
So do come and take some with me
Now here is a fork for your pastries
And do use the couch for your feet;
I know that I wanted to ask you-
Is trifle sufficient for sweet?
Milk and then just as it comes dear?
I'm afraid the preserve's full of stones;
Beg pardon, I'm soiling the doileys
With afternoon tea-cakes and scones.
John Betjeman
Subscrever:
Mensagens (Atom)
