quarta-feira, janeiro 31, 2007

Albânia


nesses dias todos nós já tinhamos ouvido falar da Albânia não havia ninguém que não soubesse era uma luz brilhante do socialismo europeu a outra luz brilhante eramos nós. nesses dias de Beijing a Tirana, todos nós sabíamos a canção com um amigo que conhece o teu coração, a distância não pode separar-vos. só mais tarde é que percebi que estas linhas eram do poeta Wang Bo da dinastia Tang, ele morreu há muito tempo, nunca esteve em Tirana claro, não sabíamos nada desse sítio: foi um grande pequeno amigo nosso, Wei Guo, que uma vez nos disse misteriosamente: a Albânia é como o reino chinês de Yelang. Lembro-me disto e garanto: foi em 1974 e tínhamos acabado de fazer 12 anos. achámos aquilo reaccionário.

Yang Li
Trad. (do inglês): a minha

terça-feira, janeiro 30, 2007

As palavras

Em Julho do ano passado, algumas palavras enclausuraram-se no meu quarto de hóspedes em forma de protesto. Pediam-me coisas estranhas e impossíveis de obter como "óculos de ver" ou "fruta da época".
Ouço ruídos de madrugada, parece um soluçar, uma lamúria que se escapa por debaixo da porta. Não posso garantir que sejam elas, porém.
Nunca mais entrei nesse quarto desde então.

sábado, janeiro 27, 2007

Jogos Florais


Oscar Araripe

I

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já vira vinho,
vira directo vinagre.

II

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
erra e efeitos de vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

António Carlos Brito

quinta-feira, janeiro 25, 2007

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Trabalho

Não há qualquer dignidade no trabalho: esta é a cantilena mais ignóbil de sempre. O molde é muito semelhante para quase todos aqueles que têm de se sujeitar a esta trituração diária até que a validade da sua vida útil se expire. Deixa-se de pensar, imbeciliza-se. As muralhas que construimos inconscientemente naqueles fins de semana ociosos são derrubadas ao longo dos dias (in)úteis. O ciclo repete-se. As segundas-feiras são dias maus, entorpecedores, pois claro.
Trabalho numa fábrica de fiação de palavras, supervisiono um sistema de linha de montagem verbal. Vou apresentar amanhã a minha carta de demissão ao sr. Rothschild. Já comprei uns óculos de aviador e vou construir um aeroplano. Mãos à obra, mas em nome do prazer.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Tempo Insone



David Salle


A pedra da meia-noite
gira
detrás da testa.
O século dá uma reviravolta.
O vídeo cospe
mais uma história,
é o teu filme privado
tardio.
Também ele só
trata de ti.

Richard Wagner, Castanhas Quentes e outros poemas
Trad. colectiva, Poetas em Mateus
Quetzal Editores

terça-feira, janeiro 16, 2007

Noite de núpcias









Edward Burra

Mais uma vez: odiá-lo seria atribuires-lhe importância. Logo, a saída mais fácil para ti será amá-lo. Não são duas faces da mesma moeda, estás redondamente enganada. A indiferença é um equilíbrio precário, difícil de manter. O verdadeiro conhecimento provém do amor cego e trágico. Eu próprio abro-te as portas e estendo-te o tapete vermelho. Deixa de ser cordial e obsequiosa. Rasga-lhe a camisa e usa o cinto. Deixa-o ser o vilão. Não queiras dominá-lo, lambe-lhe antes as feridas. Não o respeites, porém. Se o fizeres, jamais te respeitará.

Já tenho o meu lugar cativo, prometo-te que fico até ao fim.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Catamarã
















Rothko


Fiz uma cruz com giz
no sítio onde te deves sentar.
Podes compensar a tua ausência
com o teu peito quente e cobiçado
o teu enfado é a minha medida:
Trouxeste a escova de dentes?

Guio-me pela estrela
Que paira sob a tua cabeça.
Mal viro as costas
fazes caretas
rodas o colar de pérolas
que o velho te deu.

O teu pai era um homem bom
sofria de prisão de ventre
mas foi o mar que o levou.
Tinha grandes buracos negros
em vez de olhos,
era hábil com as mãos
e fiel devoto da Virgem.

Dás nomes às gaivotas
e segredas-lhes uma melodia.
Vejo Neptuno ao longe
a acenar com o tridente.
Caímos os dois no velho engodo,
qual Ciência da Navegação?

Antecipo-me a ti
e pego na garrafa.
Cobres-te com o poncho negro,
fechas os olhos salgados.

Digo-te agora aquilo
que nunca te disse antes.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Uma Navalha

Em silêncio
observo um amolador
a afiar uma navalha.
"Então, amigo,
não se trabalha hoje?"
"Sim, trabalho
mas hoje
apetece-me
olhar para um amolador
a afiar uma navalha.
"Baixo a cabeça
e torno-me num pedaço
preto na rua,
a olhar todo o dia
até que o dia termine."

Yukio Tsuji
Tradução (inglês): a minha

terça-feira, janeiro 02, 2007

A invenção de Morel

Compreendia agora que os romancistas nos proponham fantasmas que se lamentam. Os mortos continuam entre os vivos. Custa-lhes mudar de costumes, renunciar ao tabaco, ao prestígio de violadores de mulheres. Fiquei horrorizado (pensei com teatralidade interior) por ser invisível; horrorizado por Faustine, próxima, estar noutro planeta; mas estou morto, estou fora de alcance; todas as soluções medonhas são apenas esperanças frustadas.
A manipulação destas ideias provocava-me uma euforia crescente. À noite sonhei o seguinte: estava num manicómio. Depois de uma longa consulta (o processo?) com um médico, a minha família levara-me para ali. O director era Morel. Por momentos, julgava estar no manicómio; por momentos, era eu o director do manicómio.
Não acho indispensável tomar um sonho pela realidade, nem a realidade por loucura. (...)

A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares
Trad.: Miguel Serras Pereira
Antígona

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Entre os meus dedos













Antonin Artaud


Entre os meus dedos
Existe um peso de uma bola de chumbo
Uma luz escura que seduz
Um pedaço de sombra que diz

- Adeus

À Alma,
À Inocência,
À mesma mão
Que me foi retirada

Cedo.

És a ave negra que esgaravatou
És a sombra que desceu.

A vida é para ser vivida
Alguém
Chora
Alguém
Dança
Alguém
Perdoa
Alguém
Diz

Improvisa e canta,
Não sabes fazer melhor.

Brinda e desafina,
Pior não deves ficar.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Wolf Parade - I'll Believe in Anything


A peruca é a segunda melhor invenção da Humanidade, não me restam dúvidas.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

SEM FORMA

Se houvesse só isto,
uma árvore na qual uma estrela dorme,
a catedral vazia de Chartres
e um guia impaciente
e mulheres esperando pelo comboio
e música fria como a saudade?
Se houvesse só isto,
governos alugando ministros
e ministros alugando polícias
e um anjinho
beijando os seus lábios de cera na cama
e dissidentes protestando
e manifestantes marchando
com crianças sorridentes
a música fria como a saudade
e a força que nunca dorme?
(...)

Adam Zagajewki
Trad.: Jorge Sousa Braga

terça-feira, dezembro 19, 2006

Dependência

Voltaire dizia que a dependência é a raíz de todos os males, não a desigualdade. Um cavalo não deve nada a um cavalo, um cão não deve nada a um cão. Quando o outro desvia as águas das minhas terras para as suas, assume uma posição de domínio sobre mim. Há algum mérito temporário aqui, a plantação do fruto da dependência. Combato tendências imperialistas com algum cinismo (chegando até a piscar o olho), enfrento os Gengis Cães com tácticas de guerrilha. Mas, iniciadas as hostilidades, já não importa quem ganha, porque todos perdem no final, como é bom de ver.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

How To Get On In Society



Phone for the fish knives, Norman
As cook is a little unnerved;
You kiddies have crumpled the serviettes
And I must have things daintily served.

Are the requisites all in the toilet?
The frills round the cutlets can wait
Till the girl has replenished the cruets
And switched on the logs in the grate.

It's ever so close in the lounge dear,
But the vestibule's comfy for tea
And Howard is riding on horseback
So do come and take some with me

Now here is a fork for your pastries
And do use the couch for your feet;
I know that I wanted to ask you-
Is trifle sufficient for sweet?

Milk and then just as it comes dear?
I'm afraid the preserve's full of stones;
Beg pardon, I'm soiling the doileys
With afternoon tea-cakes and scones.

John Betjeman

terça-feira, dezembro 12, 2006

Conto de Natal

- Não vens para dentro? Está frio cá fora.
- Já vou. Tou a acabar o cigarro.
- Os miúdos estão à espera, anda lá.
- Vou já.
Havia já esgotado todas as formas de o compensar. Agora tratava-se de pura cobardia. Era incapaz de viver outra realidade que não fosse aquela. Estava a lutar contra uma corrente demasiado forte. Estava exausta, incapaz de se mexer. Batia-lhe um vento gélido na cara, daqueles que fazem chorar. Quatro anos. Dormia com um recém-desconhecido que conhecia demasiado bem. Aperfeiçou-se na arte de ressuscitar vezes sem conta. E de se surpreender também. O silêncio que vinha da cidade incomodava-a, mas preferia estar ali, sozinha. Só de pensar que tinha de voltar para dentro. Algumas vozes e risadas dos velhos apartamentos que iam e vinham. Debandada quase geral para a aldeia. Êxodo sazonal, estúpido, para quê?
Mas, nessa noite, estava mansa, anestesiada. Tanto tempo à espera de uma consulta. Voltou a pensar nos miúdos. Última passa.
- Então?!
- Já vou.

domingo, dezembro 10, 2006

Musa


















Pierre Bonnard


É uma criança dividida ainda pela noite e pelo dia. Esta separação é uma chaga interna que lhe percorre o corpo, de alto a baixo, e que sangra. De um olho negro, corre-lhe um fio de sangue como um cordão umbilical que a liga à noite. No outro há o espanto irreflectido de uma possibilidade inacreditável: uma pálpebra isenta, suspensa sobre um olho que se abre à luz demasiado possível, demasiado real, demasiado bela. É este todo o seu horror.


António Ramos Rosa, Círculo Aberto
Editorial Caminho, 1979



quinta-feira, dezembro 07, 2006

Lembrete

Lançar um post antes do Natal
Comprar peúgas e paulos coelhos para toda a gente
Haverá vida antes da morte?

terça-feira, dezembro 05, 2006

Animal Figura Humana

O animal que traz uma folha na boca não deve ser confortado. Mastiga a folha para manter a acidez espalhada pela sua língua de gerânio. Acredita estar sob a ameaça de parasitas internos. Mastiga a folha, e torna a mastigá-la, sem esperança real de cura. Mastiga-a, mas não passa da haste. Acha-se desprezado, evita abraços. Irradia ouro com miséria. Perdão está fora de questão; este animal procura justiça. Demonstra uma enorme paciência enquando aguarda pela condenação do mundo. Está disposto a esperar para ser condenado. Quando confrontado com os seus erros, crispa o dorso e segue caminho, mastigando. Sabe que está para além de reparos, pelo que não ouve os seus erros. Tenta fazer bem as coisas. Não consegue. Comporta-se como se tivesse unido a uma folha com a forma de uma seta de centauro. Tal animal é uma fiel companhia para aqueles que não procuram uma mascote. O animal que tem uma folha na boca irá esticar-se e vomitar aos pés de alguém, livrando-se assim da folha enquanto dá claras provas de confiança.

Vahni Capildeo, Person Animal Figure, Landfill, Norwich, 2005
Trad.: a minha

segunda-feira, novembro 27, 2006

Cesariny morreu, viva Cesariny

Voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Ísis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco e flecha negro e azul do vento.
(...)