terça-feira, janeiro 02, 2007

A invenção de Morel

Compreendia agora que os romancistas nos proponham fantasmas que se lamentam. Os mortos continuam entre os vivos. Custa-lhes mudar de costumes, renunciar ao tabaco, ao prestígio de violadores de mulheres. Fiquei horrorizado (pensei com teatralidade interior) por ser invisível; horrorizado por Faustine, próxima, estar noutro planeta; mas estou morto, estou fora de alcance; todas as soluções medonhas são apenas esperanças frustadas.
A manipulação destas ideias provocava-me uma euforia crescente. À noite sonhei o seguinte: estava num manicómio. Depois de uma longa consulta (o processo?) com um médico, a minha família levara-me para ali. O director era Morel. Por momentos, julgava estar no manicómio; por momentos, era eu o director do manicómio.
Não acho indispensável tomar um sonho pela realidade, nem a realidade por loucura. (...)

A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares
Trad.: Miguel Serras Pereira
Antígona

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Entre os meus dedos













Antonin Artaud


Entre os meus dedos
Existe um peso de uma bola de chumbo
Uma luz escura que seduz
Um pedaço de sombra que diz

- Adeus

À Alma,
À Inocência,
À mesma mão
Que me foi retirada

Cedo.

És a ave negra que esgaravatou
És a sombra que desceu.

A vida é para ser vivida
Alguém
Chora
Alguém
Dança
Alguém
Perdoa
Alguém
Diz

Improvisa e canta,
Não sabes fazer melhor.

Brinda e desafina,
Pior não deves ficar.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Wolf Parade - I'll Believe in Anything


A peruca é a segunda melhor invenção da Humanidade, não me restam dúvidas.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

SEM FORMA

Se houvesse só isto,
uma árvore na qual uma estrela dorme,
a catedral vazia de Chartres
e um guia impaciente
e mulheres esperando pelo comboio
e música fria como a saudade?
Se houvesse só isto,
governos alugando ministros
e ministros alugando polícias
e um anjinho
beijando os seus lábios de cera na cama
e dissidentes protestando
e manifestantes marchando
com crianças sorridentes
a música fria como a saudade
e a força que nunca dorme?
(...)

Adam Zagajewki
Trad.: Jorge Sousa Braga

terça-feira, dezembro 19, 2006

Dependência

Voltaire dizia que a dependência é a raíz de todos os males, não a desigualdade. Um cavalo não deve nada a um cavalo, um cão não deve nada a um cão. Quando o outro desvia as águas das minhas terras para as suas, assume uma posição de domínio sobre mim. Há algum mérito temporário aqui, a plantação do fruto da dependência. Combato tendências imperialistas com algum cinismo (chegando até a piscar o olho), enfrento os Gengis Cães com tácticas de guerrilha. Mas, iniciadas as hostilidades, já não importa quem ganha, porque todos perdem no final, como é bom de ver.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

How To Get On In Society



Phone for the fish knives, Norman
As cook is a little unnerved;
You kiddies have crumpled the serviettes
And I must have things daintily served.

Are the requisites all in the toilet?
The frills round the cutlets can wait
Till the girl has replenished the cruets
And switched on the logs in the grate.

It's ever so close in the lounge dear,
But the vestibule's comfy for tea
And Howard is riding on horseback
So do come and take some with me

Now here is a fork for your pastries
And do use the couch for your feet;
I know that I wanted to ask you-
Is trifle sufficient for sweet?

Milk and then just as it comes dear?
I'm afraid the preserve's full of stones;
Beg pardon, I'm soiling the doileys
With afternoon tea-cakes and scones.

John Betjeman

terça-feira, dezembro 12, 2006

Conto de Natal

- Não vens para dentro? Está frio cá fora.
- Já vou. Tou a acabar o cigarro.
- Os miúdos estão à espera, anda lá.
- Vou já.
Havia já esgotado todas as formas de o compensar. Agora tratava-se de pura cobardia. Era incapaz de viver outra realidade que não fosse aquela. Estava a lutar contra uma corrente demasiado forte. Estava exausta, incapaz de se mexer. Batia-lhe um vento gélido na cara, daqueles que fazem chorar. Quatro anos. Dormia com um recém-desconhecido que conhecia demasiado bem. Aperfeiçou-se na arte de ressuscitar vezes sem conta. E de se surpreender também. O silêncio que vinha da cidade incomodava-a, mas preferia estar ali, sozinha. Só de pensar que tinha de voltar para dentro. Algumas vozes e risadas dos velhos apartamentos que iam e vinham. Debandada quase geral para a aldeia. Êxodo sazonal, estúpido, para quê?
Mas, nessa noite, estava mansa, anestesiada. Tanto tempo à espera de uma consulta. Voltou a pensar nos miúdos. Última passa.
- Então?!
- Já vou.

domingo, dezembro 10, 2006

Musa


















Pierre Bonnard


É uma criança dividida ainda pela noite e pelo dia. Esta separação é uma chaga interna que lhe percorre o corpo, de alto a baixo, e que sangra. De um olho negro, corre-lhe um fio de sangue como um cordão umbilical que a liga à noite. No outro há o espanto irreflectido de uma possibilidade inacreditável: uma pálpebra isenta, suspensa sobre um olho que se abre à luz demasiado possível, demasiado real, demasiado bela. É este todo o seu horror.


António Ramos Rosa, Círculo Aberto
Editorial Caminho, 1979



quinta-feira, dezembro 07, 2006

Lembrete

Lançar um post antes do Natal
Comprar peúgas e paulos coelhos para toda a gente
Haverá vida antes da morte?

terça-feira, dezembro 05, 2006

Animal Figura Humana

O animal que traz uma folha na boca não deve ser confortado. Mastiga a folha para manter a acidez espalhada pela sua língua de gerânio. Acredita estar sob a ameaça de parasitas internos. Mastiga a folha, e torna a mastigá-la, sem esperança real de cura. Mastiga-a, mas não passa da haste. Acha-se desprezado, evita abraços. Irradia ouro com miséria. Perdão está fora de questão; este animal procura justiça. Demonstra uma enorme paciência enquando aguarda pela condenação do mundo. Está disposto a esperar para ser condenado. Quando confrontado com os seus erros, crispa o dorso e segue caminho, mastigando. Sabe que está para além de reparos, pelo que não ouve os seus erros. Tenta fazer bem as coisas. Não consegue. Comporta-se como se tivesse unido a uma folha com a forma de uma seta de centauro. Tal animal é uma fiel companhia para aqueles que não procuram uma mascote. O animal que tem uma folha na boca irá esticar-se e vomitar aos pés de alguém, livrando-se assim da folha enquanto dá claras provas de confiança.

Vahni Capildeo, Person Animal Figure, Landfill, Norwich, 2005
Trad.: a minha

segunda-feira, novembro 27, 2006

Cesariny morreu, viva Cesariny

Voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Ísis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco e flecha negro e azul do vento.
(...)

domingo, novembro 26, 2006

Fidel



Estava uma noite limpa, de outros tempos, pré-revolucionária. A minha posição no partido dependia da minha performance dessa noite. Tinha as mãos suadas, sentia o peso dos olhares críticos dos camaradas apontados para mim. Mas não tinha nada a temer. Apesar de ter pé boto, já dera provas de ser um excelente dançarino. Dominava as sombras elegantes do tango e soltava suspiros dos meus parceiros só com o olhar. Herdara estrabismo do meu avó paterno, o meu pai só conheceu uma mulher, a minha mãe - o encanto pulou uma geração.
Chegara a nossa vez. Fidel voltou-se para mim e perguntou:
- O menino...dança?
Nesses tempos, Fidel usava brilhantina made in USA, embora ostentasse já umas fartas barbas escuras. Ao contrário do que muita gente pensa, era um verdadeiro cavalheiro e dançava melhor do que o imberbe Rodolfolziño. Nos braços dele, senti-me conjugal, amparado. Compreendo agora a sua magia contagiante, o seu carisma entre as massas. Fidelidade. Era esse o seu segredo. As palmas no final despertaram-me e, pela primeira vez, senti-me homem. Daqueles, de barba rija.

quarta-feira, novembro 22, 2006

A manta

Só depois de acender a luz do meu quarto é que me dou conta. Da escuridão, mas isso é o menos. Da legitimidade dos meus actos, mas isso é o menos. Assustei-me com a manta de lantejoulas sobre a cama, o mau gosto reflecte-se no espelho voyeur, espalha-se por todo o quarto amarelo. Queimá-la seria um bom começo, dizes tu, algo simbólico (...).

sexta-feira, novembro 17, 2006

Final Fantasy: He Poos Clouds

O nosso zoetropo favorito.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Hoje

Hoje:

Calcei-me
Aparei a barba
Flexionei
Tomei café
Tomei um duche
Acordei
Saí
Vesti-me


Não necessariamente
por esta
ordem.

Chego à altura de poder cair

(...) Chego à altura de poder cair, escolho, estremeço e desisto, e, finalmente, me votando à minha queda, despessoal, sem voz própria, finalmente sem mim - eis que tudo o que não tenho é que é meu. Desisti e quanto menos sou mais viva, quanto mais perco o meu nome mais me chamam, minha única missão secreta é a minha condição, desisto e quanto mais ignoro a senha mais cumpro o segredo, quanto menos sei mais a doçura do abismo é o meu destino.
E então eu adoro. (...)

Clarice Linspector, in A Paixão Segundo G.H.
Relógio D'Água

domingo, novembro 12, 2006

quinta-feira, novembro 09, 2006

Lua cheia

Está cientificamente provado que a lua cheia acelera o crescimento das garras e gera uivos como o post anterior* que, apesar de tudo, é baseado em factos verídicos.

*É mais difícil escrever um texto intencionalmente mau do que um elaborar um texto que possa ser considerado bom (N.E.).

quarta-feira, novembro 08, 2006

Lady Godiva do 2º Frente

















Pela noitinha, a minha vizinha do 2º Fr gosta de passear nua pelos corredores e escadas do prédio, enquanto canta alegremente o Greensleeves. O Peeping Tom desta história (o senhor reformado da EDP do 2º Esq) disse-me que ela vive da pensão do ex-marido e que é mesmo ruiva. Porém, o senhor reformado da EDP ainda não ficou cego.

sábado, novembro 04, 2006

tenho uma cabeça













Paul Klee

tenho uma cabeça que me diz todos os dias que prescinde de mim, que já não depende de mim, que a sua matéria-prima é agora a chuva fria dos cães vadios, o cio, a vida pela vida, o sol que amarelece cartas de trunfo dos velhos-jardins, a morte seca que consome devagarinho, a cegueira dos que não querem ver, trabalho, trabalho, todos os dias, até ao último comprimido e, à noite, o sorriso desdentado de crianças que se fazem à velocidade do tédio do amor, la petite mort, os olhos fechados da minha avó, o gesto, a sopa que fumegava da enorme tigela e que agora é minha por direito, o vermelho lobo que traz paz.