terça-feira, outubro 24, 2006

O prato de leite coalhado













Pedro e o Lobo (Prokofiev) pelo Theatre des Ombres

Quando um gatarrão amarelo e branco, emprestado e pelado, se disfarça de robin de bosques, pega sorrateiramente num cabide (ou cruzeta, dependendo da vossa longitude), mia ameaças de morte enquanto faz jogos de sombras na parede com a cauda... não há muito que um lobo possa fazer senão puxar os lençóis, virar-se para o outro lado e tentar dormir.

Kerblog













mazen kerbaj's blog. beirut + free improvised music + comics + bombs + drawings

segunda-feira, outubro 23, 2006

As romãs

Duras romãs entreabertas
Pelo excesso dos grãos de ouro,
Eu vejo reis, todo um tesouro
Nascer de suas descobertas!

Se os sóis de onde ressurgis,
Ó romãs de entrevista tez,
Vos fazem, prenhes de altivez,
Romper os claustros de rubis,

E se o ouro seco cede enfim
Ante a demanda ainda mais dura
E explode em gemas de carmim,

Essa luminosa ruptura
Faz sonhar uma alma que há em mim
De sua secreta arquitectura.

Paul Valéry

terça-feira, outubro 17, 2006

Nikolai Vassilievitch Gogol













É ele o meu ponto G.

Nota do editor














Saelee Oh

Este blog irá ter em breve uma edição ne varietur. Esperem só para ver.

segunda-feira, outubro 16, 2006

mudança

oiço o vento que as pessoas assobiam quando volto para casa. retribuo com o meu único sorriso dessa tarde. dentes escovados desta vez. abro a porta de casa. ainda alguns espaços vazios. esfrego as mãos, mas não consigo aquecer. fotografias e caixas por abrir. o filho com vidros nas mãos de uma família que se esqueceu de o ser.

não, ainda não me mudei completamente.

quinta-feira, outubro 12, 2006

double agent













Basquiat


amarrei-lhe as mãos
bem presas
olhei-o bem nos olhos
e disse:

finalmente és meu.

provavelmente
vai tentar roer a corda
e fugir
mais uma vez

por um momento
deve ter acreditado
que era para seu próprio bem.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Brilho

Em terreno plano, sou perfeitamente ultrapassável e não me importo de comer o pó que os outros deixam para trás. Já em terrenos inclinados, sou impelido por uma força superior que me faz galgar que nem um doido e ultrapasso-me a mim mesmo. Acredito em mim, sem esperar nada em troca, sem aspirar a nada. Sou brillant tal como uma estrela antes de sua completa extinção, antes do buraco negro.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Ícaro














Brueghel

Quando Auden escreveu sobre Ícaro
Olhou para o quadro de Brueghel numa neblina emoldurada de museu.
Não expôs os seus pupilos ao brilho directo da luz,
E não abriu as suas narinas ao odor do sábio,
E não se desnudou pelo toque de um raio que droga cada emoção
Que se derrete e escorre como cera.

E agora, aquele jovem rapaz que cai do céu:

Estive lá, em Creta, e vi com os meus próprios olhos
e como o camponês que continua a lavrar
e como cada barco elegante que apanhei durante a minha viagem
e como a oliveira que plantei
e como o riacho que inundei
e como a rocha que endureceu o meu coração,
não prestei atenção ao seu sofrimento,
eu também falei:
“ninguém pode saber – leia-se compreender
aquilo que fazemos debaixo do sol".

quarta-feira, setembro 20, 2006

O poema disse:

(...)
O poema disse: "Nasci na mata
na boca de um caçador.
Fui criado por um pescador
numa cabana.
Ainda assim nunca trabalhei, apenas canto.
Cantei primeiro nas cortes:
depois fui roliço e formoso
mas agora ando pelas ruas,
meio esfomeado"
(...)

"Gandhy and Poetry", K. Satchidanandan
Trad. Pedro Amaral

terça-feira, setembro 05, 2006

Cebola


A cebola é outra coisa.
Planta sem intimidade.
Retintamente cebola
à última cebolidade.
Acebolada por fora,
cebulona no tutano,
poderia entra em si
sem se causar qualquer dano.

Em nós selva e estranhamento,
que uma pele mal sustenta
o nosso inferno uterino,
anatomia violenta,
e, na cebola, cebola,
um lisíssimo intestino.
La muitas vezes nua,
Até ao miolo mais fino.

Cebola ser sem contrários,
cebola bem sucedida,
na maior a mais pequena,
uma na outra metida,
e na seguinte outra ainda,
uma quarta e uma quinta.
Fuga em espiral para o centro,
eco no coro à medida.

Cebola eu bem te compreendo,
mais belo ventre do mundo,
tu própria em tuas auréolas
do teu sucesso profundo.
Em nós gorduras e nervos,
mucos, veias e recessos,
e ao kitch do ser perfeito
é-nos vedado o acesso.


Wislawa Szymborsja, trad. Júlio Sousa Gomes,
in Paisagem com Grão de Areia, Relógio d'Água, 1998

sábado, agosto 19, 2006

As baratuchas tintas leguminosas de Van Gogh


(...) As baratuchas tintas leguminosas de Van Gogh desgraçadamente compradas por vinte sous.
Van Gogh escarra sangue, como suicida dos quartos mobilados. As tábuas do chão no café nocturno inclinam-se e fluem como calha em fúria eléctrica. A estreita tina do bilhar lembra o cepo do caixão.
Nunca vi um colorido como este.
E que paisagens - de hortas e revisores de comboio! Acabaram de limpá-las de fuligem dos comboios suburbanos com um trapo molhado.
As telas de Van gogh, que a omoleta da catástrofe lambuzou, são didácticas como material escolar - mapas da escola Berlitz. (...)

"Guarda Minha Fala Para Sempre", Ossip Mandelstam
Assírio & Alvim

sexta-feira, agosto 11, 2006

Voz

Não tinha dinheiro
Penhoraram a minha voz

Sempre fui de poucas falas
Sempre adoptei a voz passiva:

A avó do Capuchinho foi comida pelo lobo

Devolveram-me a minha voz
Mal tratada e em tom mais grave
Gesticulo e esperneio
Durmo nu de cachecol.



quarta-feira, agosto 09, 2006

Dar-se

Dar-se é quase tão necessário como respirar ou comer. A mãe que amamenta o seu filho está a dar algo de si para que o pequeno sobreviva, para que ela, no fundo, sobreviva também. Mais importante do que receber. Amar.

sábado, julho 22, 2006

Vaga de calor

Antes de ir de férias, Deus deixa as chaves a Judas, aperta bem as sandálias e lança um último e prolongado suspiro sobre os fiéis e infiéis.
Faz-se à estrada, não olha para trás.

quinta-feira, julho 20, 2006

Cantar de Amigo

À beira do rio fui dançar... Dançando
Me estava entretendo,
Muito a sós comigo,
Ouando na outra margem, como se escondendo
Para que eu não visse que me estava olhando,
Por entre os salgueiros vi o meu amigo.

Vi o meu amigo cujos olhos tristes
Certo se alegravam
De me ver dançar.
Fui largando as roupas que me embaraçavam,
Fui soltando as tranças... Olhos que me vistes,
Doces olhos tristes, não no ireis contar!
Que o amor é lume bem eu sei... que logo
Que vi meu amigo
Por entre os salgueiros ,
Melhor eu dançava, já não só comigo
Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,
Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.

Que Deus me perdoe, que os seus olhos tristes
Assim ofertava
Minha formosura!
Se não fora o rio que nos separava,
Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,
Nem eu me amostrara tão de mim segura.


José Régio, Música Ligeira

Obrigado.

segunda-feira, julho 17, 2006

As Musas Cegas

(...)
Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito

nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. - E é uma pedra celeste.

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.

Herberto Helder

quarta-feira, julho 12, 2006

Eu












Posada, Jose Guadalupe

Mais consistente do que catarro na parede.
Mais forte do que o peido de burro atolado.
Mais saboroso do que um beijo da prima.
Mais grosso do que a cintura de um sapo.
Mais inútil do que mijar num incêndio.
Mais ligado do que o rádio de um condenado.

terça-feira, julho 11, 2006

Síndrome do Emigrante

Tenho saudades do meu país.
Daquele Portugal antes da C.E.E., das bigodaças fartas dos homens e do rouge excessivo das mulheres. Das botas de borracha coloridas das crianças e dos muitos cães vadios que enchiam as cidades.

(alguém pediu-me um poema, lamento)

domingo, julho 09, 2006

Novo Texto

Até aqui, tudo bem
(...)

Morte

Há dias em que não consigo deixar de pensar no poder da morte e na consequente mudança de hábitos que implica.

Ajuda-me a manter-me vivo.

quinta-feira, julho 06, 2006

Klimt













Apurem o resultado desta adição, se conseguirem:
J. Malkovith + Raoul Ruiz + G. Klimt =

Águas Furtadas

A "aguasfurtadas", revista de literatura, música e artes visuais acabade lançar o seu número nove. Com textos de Inês Lourenço, Tiago Gomes,Rui Lage, Pedro Ribeiro, Marcelo Rizzi, Adrienne Rich, Virginia Woolf, Filipe Guerra, entre muitos outros, para além de trabalhos inéditos de vários fotógrafos e artistas plásticos, e ainda de um CD com obras de Alexandre Delgado, Ruben Andrade, Dimitris Andrikopoulos e do grupo de jazz Espécie de Trio. Este número nove será apresentado no próximo dia 6 de Julho, a partir das 21h30, nos Espaços JUP (Rua Miguel Bombarda, 187), no Porto, com a realização de um espectáculo que incluirá as actuações dos projectos Mana Calórica e Las Tequillas. Haverá ainda outros motivos de interesse que estão a ser meticulosamente preparados pela equipa de coordenação da revista.
Entretanto, assista ao primeiro vídeo de promoção deste número nove aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=MZ4rtoXgMfw

terça-feira, julho 04, 2006

Ordem

É frequente dar por mim a fechar a torneira dos poucos bons conselheiros que existem na minha cabeça, cortando-lhes precisamente as suas cabeças, pouco antes de implorem por misericórdia.
Tenho de manter a ordem, mortificar o jejum moral e estar atento às fraquezas dos outros para importar os seus infernos e colá-los como lembretes nas minhas mãos.
Sou o actor e o espectador mais fiel e mais descontente de mim mesmo.

domingo, julho 02, 2006

Boa tarde

Há um gato ordinário que me corteja a partir da sua marquise do velho prédio da frente. No telhado, as crias das gaivotas caminham desajeitadas, espalhando penas pelo ar enquanto soltam pequenos guinchos.
Dois namorados despedem-se demoradamente, cá em baixo, na rua. Afastam-se por fim, ela olha para trás, mas ele segue em frente.
Na minha pequena varanda, apanho os últimos raios de sol desta boa tarde e sorrio sem motivo.
Aguardo visitas. A limpeza da casa pode ficar para depois.

terça-feira, junho 27, 2006

Um ano de vida


Parabéns!
A todos os transeuntes perdidos e aficionados anónimos que vieram ter por acaso a esta toca.

Parabéns a vocês!

De poesia - mas o que é a poesia?


Alguns - quer dizer nem todos. Nem a maioria de todos, mas a minoria. Excluindo escolas, onde se deve os próprios poetas, serão talvez dois em mil.
Gostam -mas também se gosta de canja de massa, gosta-se da lisonja e da cor azul, gosta-se de um velho cachecol, gosta-se de levar a sua avante, gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia - mas o que é a poesia? Algumas respostas vagas já foram dadas, mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro como a um corrimão providencial.

Wislawa Szymborska

terça-feira, junho 20, 2006

quarta-feira, junho 14, 2006

Confessionário

"Nobody's loves me but my mother
and sometimes I think
she could be jiving too"
B.B. King

Depois de um destes dias de trabalho perfeitamente áridos e inconsequentes, senti que estava em falta para comigo mesmo e achei que deveria cumprir um dos sagrados sacramentos de deus: a Penitência ou Confissão. Há já algum tempo que não me penitenciava, era chegada a hora.

Além de ser muito mais barato de que ir a um psi, o sigilo sacramental não permite ao pastor divulgar os nossos pecados ao resto da comunidade, o que já não acontece com os psi's que devem gozar à brava quando resolvem descomprimir e trocar entre si as historietas dos seus clientes.

Depois de relatar os meus pecados por ordem de gravidade durante seis, sete minutos, houve um momento de silêncio por parte do meu confessor que me pareceu propositado. De repente, suspira e exclama solenemente:
- Eu amo-te, meu filho.
Mandou-me rezar 30 padres e 50 avés durante 5 dias para que deixasse de pensar em coisas absurdas e desnecessárias.
- Deves ir ao Seu encontro, não deves esperá-Lo.
Deu-me no fim um papel com uma morada em que dizia "LBV - aceitam-se voluntários". Abençoou-me, pigarreou e mandou-me embora. Antes de sair da Igreja, parei no altar de Sta. Teresinha, fascina-me a sua beleza púdica, o seu olhar inocente. Deposito sempre uma nota de dez euros na respectiva caixa de esmolas. Os querubins a seu lado piscaram-me logo o olho e sorriram como os miúdos que pedem em nome do Sto. António.

Bem, eu já tenho um LBV (Late Bottled Vintage) da Dow's de 1999, um bom ano. Acho que vou "passar" a última sugestão do seu padre e observar apenas a primeira, orar como um perdido nestas noites de insónia para depois sonhar com a minha Sta. Teresinha.

segunda-feira, junho 12, 2006

Gostos e Desgostos











Os gostos e os desgostos
levam ao poema
como podem levar
ao precipício
o poema fala do precipício
lá haverá choro
e ranger de dentes
e não haverá Kleenex
nem o Dr. Abílio Loffo
meu querido dentista
o poema fala do precipício
evitado a tempo
o mau poema não mata
(mais vale burro vivo
que sábio morto)

Adília Lopes

sexta-feira, junho 09, 2006

Um dia

Acordo. Adormeço, acordo outra vez. Salto da cama como um boneco de mola. Dou à corda antes de sair. Jogo à macaca no pátio da firma. Os meus colegas batem-me palminhas. Regresso a casa e corro. Tento ser mais rápido do que os meninos do remo que vogam no meio do douro.
A lua é cheia, mas a noite é vazia. Ouço homens do lixo e cães vadios a ladrarem. Jogo sozinho às escondidas na minha toca. Canso-me. Tenho um cubo mágico no lugar do coração que não pára de rodar. O lobo conta 96 carneiros e adormece por fim.

quarta-feira, junho 07, 2006

Fraco mas forte















Antônio Hélio Cabral


Fraco mas forte
Nada na mão
algo na v'rilha
remancho as noites
e troto os dias
entre tabaco
viris bebidas
fraco mas forte
de muitas vidas
(que eu já dormi
co'as duas mães
e as duas filhas
que vão à missa
com três mantilhas)

Nada na mão
algo na v'rilha
sofro comigo
luta intestina
(ao bem ao mal
a mesma alpista)
bebo contigo
cerveja uísqui
p'ra que se veja
mais rubra a crista

Nada na mão
algo na v'rilha
encontro a morte
no meio da vida
morte bonita
nada aflita
(ou é da minha
tão fraca vista?)
e tenho sorte

Nada na mão
algo na v'rilha
invisto contra
o zero puro
da minha vida

e duro, duro!

Alexandre O´Neill, in Poesias Completas

quarta-feira, maio 31, 2006

Vênus


Não tenho braços tal como a Vênus de Milo

Viro-me com alguma dificuldade e indolência
E não consigo ver as outras estátuas atrás de mim
Meus lábios de pedra, selados por castigo

Quero gritar como todas as mulheres
mas deus e a cidade não deixam.

Entre as minhas pernas
Tecidos rugosos cobrem
Desejo e frustação

O mais forte vencerá no fim.

Poeta/hamster

Os poetas são como aqueles hamsters naquelas gaiolas com cilindros giratórios: se param, morrem.
As mães hamster comem os seus filhos quando estão feridos ou doentes e sabem que não vão sobreviver. Também ocorre em situações de stress, insegurança, em ambientes não adequados para construir o ninho, etc. Não o fazem por ódio, mas por precaução e instinto.
Os hamsters e os poetas têm um antepassado comum. Há relatos de poetas que tentam a concepção, mas não conseguem dar à luz aquilo que mais desejam.
No entanto, não podem simplesmente parar e, assim, sofrem anos a fio presos nas suas gaiolas.

quinta-feira, maio 25, 2006

A/C da minha mana

Fui ao jardim da Celeste,
giroflé, giroflá,
fui ao jardim da Celeste,
giroflé, flé, flá

O que foste lá fazer?
giroflé, giroflá,
O que foste lá fazer?
giroflé, flé, flá.
Fui lá buscar uma rosa,
giroflé, giroflá,

Fui lá buscar uma rosa,
giroflé, flé, flá
Para quem é essa rosa,
giroflé, giroflá,

Para quem é essa rosa,
giroflé, flé, flá.
É para a menina Joana,
giroflé, giroflá,
É para a menina Joana,
giroflé, flé, flá

terça-feira, maio 23, 2006

Teu ombro estreito

Gaugin

Teu ombro estreito - para o chicote enrubescer,
Chicote enrubescer - o ar gelado queimar.

Tua mão infantil - para os ferros erguer,
Ferros erguer, e mais - cordames entrançar.

Teu frágil pé - nu pelos vidros esmilhados,
Pelos vidros, e mais - a areia ensanguentar.

E eu sou, vela negra, para arder por ti,
Por ti arder, e mais - a prece não ousar.


Ossip Mandelstam, in Guarda Minha Fala Para Sempre
Assírio & Alvim

sexta-feira, maio 19, 2006

le chat noir


Acordei hoje outra vez enroscado no chão. A minha a língua está cada vez mais rugosa e já não tenho sobrancelhas.
O terrível castigo abateu-se finalmente sobre mim. Já não consigo esconder a cauda que cresce quase dois centímetros todas as noites. Liguei para Deus que me reencaminhou para Kafka que me aconselhou vinho tinto e a cortar no leite. "Versuch stark!" e desligou.

domingo, maio 14, 2006

Amor como Depravação do Nervo Óptico

Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da definição vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e estúpidas que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja. E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista quanto a alma da pessoa enferma, vítima de sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.

Camilo Castelo Branco, in 'Coração, Cabeça e Estômago'

quinta-feira, maio 11, 2006

Egoísmo

Aqueles que me acusam de egoísmo e reclamam os meus sentimentos, estão a absorver-me e a tributar-me com o seu egoísmo disfarçado de preocupação. Se me conhecessem melhor, não insistiriam mais e, mais tarde, seriam inundados por uma torrente de emoções e ideias que os confunde.

No final, acabo sempre por partilhar o meu egoísmo com quase todos aqueles que estimo .

quinta-feira, maio 04, 2006

A Troca

Já há algum tempo que pondero trocar todas as minhas mulheres e os meus sapatos de pele por camelos e "puros sangues". Entrei em conversações com um emir e vários vizires e as coisas parecem estar bem encaminhadas. Vai ser bom para ambas as partes, creio.

Quero sentir outra vez o chão que piso e libertar-me da cor púrpura destas mulheres que me cega e entorpece.

Depois disto, só preciso de morrer para reclamarem a minha alma, mas para isso tinha de estar vivo.

Penso cada vez mais no lugar que Deus me reservou para mim e que me está prometido desde o dia em que nasci. Quero levar também a minha gata castrada comigo para poder sentir o seu pelo macio - decerto vou ficar nervoso sempre que Ele se aproximar de mim e me interpelar.

sexta-feira, abril 14, 2006

Como ficar a saber a idade de um cavalo, um poema de amor

















A melhor forma de ficar a saber a idade de um cavalo é olhando para os seus dentes.
Aos seis meses conta já com quatro molares.
Com dois anos tem seis, e continuam a crescer até que
os dentes de leite sejam substituídos pelos definitivos.
Com dez anos aparece uma rachadela nos molares de trás que continua a crescer
até metade do tamanho do dente quando o cavalo atingir os quinze anos.
A partir dos vinte cinco, a rachadela começa lentamente a desaparecer.
A melhor forma de ficar a saber a idade do amor é olhando para os seus dentes de leite.
Uma pequena cicatriz irá marcar aquilo que foi extraído ou deixado.

Ronny Someck, in "Gan'eden le orez"

terça-feira, abril 11, 2006

Judas













Giotto di Bondone


Ele não pediu nada a Judas, não pediu a nada ninguém, excepto para nos amarmos como Ele nos amou.
E eu tento seguir a Palavra d'Ele todos os dias e todas as noites.

quinta-feira, abril 06, 2006

A Perfeição

A PERFEIÇÃO

O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

Clarice Linspector

quinta-feira, março 23, 2006

O meu amigo

Ontem à noite, passei um semáforo vermelho, porque estava a pensar dentro do meu próprio carro. A pensar, veja lá. Irresponsável.
Mas não se preocupe, não há vítimas a registar, excepto eu.

Já em casa, cheguei à brilhante conclusão que nunca irei ser um tipo racional e inteligente como o meu caro e solitário amigo. E, como pode muito bem constatar, este blog é a prova disso (eu sei que, na realidade, o meu amigo queria cavalgar para aqui).

Ainda guardo um iô-iô fluorescente (lembra-se) e uns malabares para me distrair (não concentrar), posso emprestar-lhe, se quiser. É o máximo que posso fazer pelo transtorno causado. O meu ascendente em Libra permite-me ter uma enorme empatia pelo próximo, e sei exactamente o que lhe passou pela cabeça quando viu este blog.

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quinta-feira, março 16, 2006

Café


Willi Baumeister

Foi inesperado. Enquanto mexia o açúcar no café, o meu pai perguntou-me o que é que eu tinha.
- Não tenho nada, pai.
- De certeza? Ultimamente vejo-te um pouco cabisbaixo.
- Já disse que não tenho nada. Olha, e tu tás melhor?
- Tou... só te digo isto, não te arrependas como tantas vezes já te arrependeste das coisas que fizeste e daquelas que deixaste por fazer.
- ...
Estive mesmo para dizer que tinha um blog, e que já não havia nada a fazer, mas não disse. Matei logo a conversa.
E arrependi-me.
Outra vez.

segunda-feira, março 13, 2006

Como disse?

"Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação."

Andre Breton

terça-feira, março 07, 2006

Dos defeitos

Confesso que tenho apenas três defeitos - o primeiro é predefinido (por defeito), os outros dois existem por força das circunstâncias:
a) não sou mulher - ler "suficientemente" sublime e manipulador
b) sou cristão, apoio J.C. em toda a sua linha, mas encontro-me em fase de desmame
c) ainda não tenho filhos.

Tenho a certeza que vou fazer mais sentido quando conseguir ultrapassar estes defeitos.

domingo, março 05, 2006

Na cova dos leões









Rubens

Se Ele livra e salva, porque é que não é tenho a mesma sorte de Daniel quando esteve na cova dos leões?
Os bichos não me devoraram, lamberam-me os pés e sorriram para mim trocistas.
A minha carne será assim tão fraca?

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Mais Águasfurtadas

Na próxima quinta-feira, dia 23, a livraria "Sem Mais Nem Menos" (Rua Mártires da Liberdade, 130, Porto) recebe a primeira sessão de apresentação da revista. A sessão terá início às 22h00 e contará com a presença e participação de Ana Luísa Amaral, Rui Lage, José Carlos Tinoco, António Pedro Ribeiro entre outros. Para além de um pequeno concerto com o clarinetista João Pedro Santos que interpretará, entre outras, a peça de Rui Miguel Dias incluída no CD da revista.

E, claro, juntamente com "O Jogo" e "As Receitas d'Avó", comprem/peçam emprestado (mas não roubem que é feio) a revista literária do momento e daquele que vem a seguir.

A Traição


quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse


Alexandre O'Neill, Poesias Completas

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Apelo















Josef LIESLER

Faço daqui um apelo às autoridades competentes para me aplicarem o termo de identidade e residência nos próximos meses. É um favor que me fazem. É a minha integridade física que está em jogo.
Ontem, saí de casa e não consegui caminhar para chegar já não sei bem onde. A campanha de conspiração dos deuses contra a minha pessoa já começou, tenho a certeza.
Hoje, a senhora com um ar distinto do café enganou-se no troco e não sorriu para mim como habitualmente.
E, como se não bastasse, a lua já não muda de quartos e ainda ninguém fez nada.

sábado, fevereiro 18, 2006

Emily (2)

A Bíblia é um Livro antigo -
Escrito por Homens já desaparecidos
Por sugestão de Espectros Sagrados -
Temas - Belém -
Paraíso - a velha Morada -
Satanás - o Brigadeiro -
Judas - o Grande Infractor -
David - o Trovador -
Pecado - um reconhecido Precipício
A que outros devem resistir -
Os Rapazes que "crêem" são solitários -
Os outros estão "perdidos" -
Tivesse a História melhor Narrador -
E todos os Rapazes viriam -
O Sermão de Orpheu cativava -
E não condenava -

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Fada dos dentes - a vingança


Mais uma vez, enquanto conduzia, caíu-me um pedaço de dente, assim, do nada. A minha cara começa a ficar encovada antes do tempo, e acredito sinceramente que padeço de uma nova doença: a lepra dentária, muito pior do que a vulgar cárie.

Nunca mais, repito, n-u-n-c-a m-a-i-s, torno a discutir com a Fada dos Dentes, a única mulher que gostava de mim por aquilo que não era.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

O boato mais inútil

Miller e o Bukowski só não chegaram a vias de facto, devido às bolhas protectoras dos egos que envolviam e protegiam estes dois indivíduos com cadastro.

Há quem diga, porém, que foi o bafo de Charles que fez com que Henry recuasse no último segundo, nessa conferência.

Actualmente, o embate assumiu a forma de guerrilha nas livrarias e bibliotecas, locais que favorecem naturalmente este tipo de ocorrências.

domingo, fevereiro 12, 2006

Plantas de insónia



Ofereceste-me plantas de insónia
que tenho sabido muito bem tratar

Enrolam-se em mim
porque precisam do ar que respiro

Eu: sou de uma estranha estirpe
e o meu espelho sabe disso

Sorrio todas as noites à sua frente
e do seu poder de matar

A minha casa deixou de ser minha
para ser das plantas que me deixaste

Quando me deixaste.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Allah Akbar

Ontem à noite, depois de jantar em casa dos meus progenitores - que me proibiram terminantemente de comer ração seca para cães misturada com leite do dia - fui vítima de um ataque cobarde e miserável.
Enquanto caminhava em direcção ao meu bólide para recolher à minha toca, reparei, ao longe, na presença de vários gatos pretos em cima do carro.
Por mais tempo que viva, nunca hei-de esquecer aquele olhar de ódio que aqueles animais lançaram sobre mim, pouco antes da investida que se seguiu. Um dos felinos, que julgo tratar-se do gato Alfa (não sei se é assim que se designa o chefe dos felinos) abriu as goelas e gritou:
- Allah Akbar! Inch'Allah!!
De repente, saltaram vários gatos pretos na minha direcção, sacaram os seus sabres e tentaram atingir-me com vários golpes. Consegui abrir a custo a porta do carro, arranquei prego a fundo e creio que atrolopei um ou dois durante a fuga. Em seguida, ouvi vários estrondos que pareciam ter rebentado mesmo atrás de mim. Olhei pelo retrovisor e vi que os gatos eram, nada mais, nada menos, de que mártires suicídas, mas, para minha sorte, o detonador ou a bomba relógio deveriam estar regulados pela hora de Verão.

Mais tarde, ao tratar das feridas com vodka ucraniana - muito má para ser ingerida e apreciada - acalmei-me e consegui fazer a reconstituição dos factos: tenho o péssimo hábito de deixar revistas e livros espalhados na "chapeleira" do meu carro. Um dos livros era o último de Paulo Coelho, juntamente com uma revista que ilustrava os cartoons polémicos sobre o profeta Maomé.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

A Primeira Vez que Entendi



A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continou mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permaneceram
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.


Affonso Romano de Santa'Anna, in "Vestígios"

Águas Furtadas




Ele há coisas que recuso terminantemente fazer neste blog; uma delas é divulgar revistas literárias de qualidade irrepreensível:

Parabéns ao Rui Amaral e à Luísa Marinho e restantes conspiradores.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

o poeta

o poeta - esse mesmo que vende arrobas de mentiras sem saber exactamente porque o fez, para, em seguida, confessar-se a pés juntos na ponte de pedra e chamar por quem nunca o ouve - não faz mais do que aceitar o seu destino:

- desenhar grandes cogumelos vermelhos nas vidraças das salas de escolas primárias, sorrir, afastar-se e atirar pedrinhas, de longe.

emily


Nunca me senti em Casa - Cá me baixo
E nos Aprazíveis Céus
Não me sentirei em casa - eu sei -
Eu não gosto do Paraíso -

Porque é Domingo - sempre -
E o Recreio - nunca chega -
E o Éden serão solitárias
Claras Tardes de Quarta-feira -

Se, ao menos, Deus fizesse visitas -
Ou Sestas -
E deixasse de nos ver - mas dizem
Que Ele - por um Telescópio

Perpétuo nos olha -
Eu própria fugiria
D'Ele - e do Espírito Santo - e de Todos -
Não fosse o "Juízo Final"!


Emily Dickinson, "Esta é a Minha Carta ao Mundo e Outros Poemas"
Trad.: Cecília Rego Pinheiro
Assírio & Alvim

segunda-feira, janeiro 30, 2006

A pequena ratazana

A pequena ratazana cheirou o ar ao redor, engoliu a seco e arriscou cantar para o quarto minguante, o seu primeiro e único amor.

A cantilena era mais ou menos assim:

Le frisson
d'être bien
pour chanter
à cause de rien.

Le frisson
d'être curieux
c'est vraiement
marveilleux.

Le frisson
de n'être pas Mallarmé
sans aucune
responsabilité.

Le frisson
d'arriver
au fin
de cet hiver
.

Le frisson.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

A mão ao assinar este papel

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade de um país;
estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende o seu domínio
sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

Dylan Thomas, in "A Mão Ao Assinar Este Papel"
tradução de Fernando Guimarães
Assírio & Alvim

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Reis do Sonho




Mais vale, na verdade, o patrão Vasques que os Reis do Sonho; mais vale, na verdade, o escritório da Rua dos Douradores do que as grandes áleas dos parques impossíveis. Tendo o patrão Vasques, posso gozar a visão interior das paisagens que não existem. Mas se tivesse os Reis do Sonho, que me ficaria para sonhar? Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de possível ? (...) Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra não o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra está privado de o ser, em sonhos, outro rei que não o rei que é. A sua realidade não o deixa sentir.

Fernando Pessoa, in "Livro do Desassossego"

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Campanha Eleitoral

Durante a tarde de ontem, apoiantes dos candidatos Dr. Speedy Gonzalez e Eng.º Mickey Mouse trocaram insultos depois das respectivas máquinas partidárias terem agendado ratices e outros beijinhos no mercado do Bolhão, no Porto. A imagem de ambos ficou ainda mais fragilizada, depois do espectáculo pouco abonatório que se verificou nesse local obrigatório e emblemático da cidade invicta. Os ânimos exaltados dos apoiantes pouco favoreceram o já atribulado ambiente da campanha, acusando-se mutuamente do desvio de "códeas que pertencem ao povo", chegando mesmo a insultarem-se com termos indecorosos, como "lambe-camemberts" ou "caga-flamengos".

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Cada vez mais...

Cada vez mais, dou-me conta de que sempre levei uma vida contemplativa. Sou uma espécie de Brâmane ao contrário, meditando em si mesmo no meio da barafunda, que, com toda a sua força, se disciplina e desdenha da existência. Ou o pugilista com a sua sombra, que furiosamente, calmamente, socando no vazio, vigia a sua forma. Que virtuosismo, que ciência, que equílibrio, a facilidade com que acelera! Mais tarde, temos de aprender a aceitar o castigo com igual imperturbabilidade. Pela minha parte, sei como aceitar o castigo, com que serenidade produzo frutos e com que serenidade me destruo: em suma, actuo no mundo, não tanto para meu prazer, mas para dar prazer aos outros (são os reflexos dos outros que dão prazer, não os meus). Só uma alma cheia de desespero pode atingir a serenidade, e, para nos sentirmos desesperados, temos de ter amado muito e de ainda amar o mundo.

Blaise Cendrars, Une Nuit dans la Forêt

domingo, janeiro 08, 2006

A. não tão A.

7 dias, 4 horas, 32 minutos e 30 segundos sem saber o que é o cheiro do álcool.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Losa, Ilse Lieblich


Sim, lembro-me, claro que me lembro: ainda mal tinha saído da toca e ela deixava-me ficar migalhas de letras e de sonhos em cima da pedra cinza. Desejava avidamente explorar o mundo ao meu redor, quando, pouco a pouco, comecei a reparar no meu verdadeiro reflexo nas águas tumultuosas e a suster a respiração sempre que a brisa me roçava o pêlo...

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Fada dos dentes



Levei quatro estalos na boca da fada dos dentes sem saber porquê. Ela falava com sotaque carioca. Enfiou-me em seguida dedais dourados nos meus doze dedos, não fosse eu mexer onde não devia. Babei-me e voltei a babar-me e só pensava no tubo de sucção da saliva e o que aconteceria se o metesse no nariz.

Parti eu o meu porquinho cor de rosa para isto.

quinta-feira, outubro 27, 2005

O Pobre Tolo

A vida é uma luta entre os seus aspectos revelados e o limbo em que eles se perdem e ampliam até à suprema distância imaginável; uma luta entre a realidade e o sonho, a Carne e o Verbo. Entre nós, o Verbo não encarnou inteiramente. Somos corpo e alma, verbo encarnado e verbo não encarnado, a matéria e o limbo, o esqueleto de pedra e um fumo que o enconbre e ondula em volta dele, e dança aos ventos da loucura... E aí tendes um pobre tolo sentimental, uma caricatura elegíaca. Neste limbo interior, neste infinito espiritual, vive a lembrança de Deus que alimenta a nossa esperança, e transfigura esse bicho do Demónio, que anda por esses boulevards, vestido à moda ou coberto de farrapos.
Ardemos num incêndio de esperança, para que reste de nós uma lembrança, um fumo que sobe e não se apaga. Tudo é memória: um fumo leve, em mil visagens animadas; ou denso, em formas inertes e sombrias; e, ao longe, a grande fogueira invisível que os demónios e os anjos alimentam.

Vivo, porque espero. Lembro-me, logo existo.

Teixeira de Pascoaes, in "O Pobre Tolo"

quarta-feira, outubro 26, 2005


Milton Avery

Hipnos visita-me tarde, não morre de amores por mim. Enquanto aguardo ansiosamente pela sua chegada, já de madrugada, distraio-me com a leitura da bula do Victan e de uma antologia de Juan Luis Panero, que, diga-se de passagem, têm muita coisa em comum.

terça-feira, outubro 25, 2005

Cão




Cão passageiro, cão estrito
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão ali, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o ossoessencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal de poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moido de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção,
cão pré fabricado,
cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,
cão de olhos que afligem,
cão problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill

sexta-feira, outubro 21, 2005

Colgate - Todo o meu Amor




Vi hoje o passarinho azul: apaixonei-me pela minha pasta de dentes Colgate Efeito Branqueador, enquanto tomava o meu duche matinal. Engoli sem querer um pouco de pasta e aliviou-me as minhas habituais dores de cabeça matinais. Ainda extasiado, percebi que posso moldar as suas formas e conseguir aquelas curvas que qualquer homem (ou mulher) deseja.

É perfeita, mas fica sequinha se não enrosco a tampinha.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Construtores de labirintos

Tenho de estar completamente só quando penso,
E no parapeito mais alto
Debruçado sobre a rua vazia.
A janela poeirenta da loja lá em baixo
Está cheia de fantasmas ao pôr do sol.

Ali vai o meu velho. Já tem a idade que tenho agora.
De olhos fechados
chama as criadas pelos seus nomes secretos:
Sto. Isaac, o sírio,
Sto. Nilo, que escreveu sobre a oração.
O vinho das ambiguidades eternas,
Se faz favor, à saúde do corvo
Sentado no cimo de uma igreja branca.

A sua vida também é um emaranhado fantástico.
Os nossos infortúnios são empreiteiros.
Esquecem-se sempre das janelas,
Fazem os tectos baixos e pesados.
«É só uma lua de papel», cantam...
Mas estou a ir demasiado depressa.

No fim de um corredor escuro
Há um fósforo aceso numa mão trémula.
«Ainda tenho pavor do palco»,
Diz a bela mulher,
E depois guia-nos por entre guarda-roupas
Com espelhos e portas empenadas,
Onde estão pendurados vestidos sussurrantes,
Espartilhos sussurrantes, sapatos com botões -
Do tipo que se usaria para cavalgar uma cabra.

A sua filha, dizem-nos, está tísica.
Há uma marca do polegar oleoso da morte
na sua face angélica:
Ela quer que eu brinque debaixo da mesa
Dos jogadores de cartas silenciosos.

Brincamos e é como o palácio em Cnossos.
A memória, o único fósforo queimado do meu coração:
A sua mão guiando-me nas ruínas,
E as cartas sussurrando sobre as nossas cabeças
Que a nossa juventude e o nosso amor aturdiram.


Charles Simic
Trad. José Alberto Oliveira
Assírio & Alvim

quarta-feira, outubro 19, 2005

Allegro molto capriccioso


Cézanne

Uma dieta à base de pêssegos e piña colada (ok, eu cedo, com um pouco de licor do Faial para voar um bocadinho) ajudaria bastante a levantar a moral da população portuguesa.

P.S. (Post Scriptum, para que não haja confusões):
Este post não possui qualquer pretensão política.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Presente

O Presente é-me oferecido de bandeja todos os dias, mas sinto que o subestimo. Nunca sei quando inicia ou termina, está sempre em curso, de forma contínua, e isso cria-me uma certa confusão. Não presto atenção suficiente, o agora passa-me ao lado e, portanto, torna-se automaticamente em Passado. Por outro lado, aborrece-me de morte fazer planos para o Futuro.

Bem, este post já era.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Corridinho


Alphonse Mucha

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

Adélia Prado, "Poesia Reunida", Siciliano - 1991, São Paulo

Sangue do meu sangue

Gosto de dar sangue.
É bom saber que a vaidade e o egoísmo que corre nas minhas veias vão ser vertidos para outros que precisam bem mais do que eu. Vejo pessoas demasiado boas à minha volta, é preciso haver mais egos distintos e arrebatados.
Além disso, tenho esta necessidade de me identificar com alguém que seja quase tão sanguíneo quanto eu.

terça-feira, outubro 11, 2005

Sol a Sol


Basquiat

(...)
Diz um: eu sou o sábio de domingo.
Agora não me ocupo de dias úteis, de remendos d'alma,
De fragilidades.
Esperem por mim mas só depois
Da missa.

Diz outro: a ética é grega de nascença
Movemo-nos por números, já sentenciava Pitágoras.
Não cunhamos moeda, não sujamos as mãos
Nos improvisados remos do naufrágio.
O nosso destino é perguntar.

Parece que deus quis que não nascesse a obra.
Nascer que nasça o sol
E é bastante.
Quem pergunta ao sonho pelo homem
De serviço? (...)

Armando Silva Carvalho

segunda-feira, outubro 10, 2005

The Big Lebowski

Se os irmãos Coen me tivessem dado a oportunidade para escolher um papel neste filme, seria um dos mecos do famoso salão de bowling onde quase tudo se decide.

Caso não fosse possível, gostaria de ser Jesus, dude.

quinta-feira, outubro 06, 2005

A Frente do Amor


Egon Schiele

Aquilo que aprendemos sobre o amor advém de romances, histórias e poemas. A par com a pobreza, frustação e horizontes cortados, começamos por apaixonamo-nos com uma tranquilidade terrível e caímos em sofrimento de uma forma muito mais fácil. No entanto, mantemo-nos fiéis à idéia de que o amor não vive nem existe para além dos livros.
As derrotas amorosas destruíram muitos de nós, levaram outros tantos à vadiagem e fez com que muitos outros desaparecessem. Apesar disso, aparecem, de quando em vez, alguns guerreiros; um jovem que, na maior parte dos casos, agita uma bandeira esfarrapada, ridiculariza o peso esmagador da realidade e a sua mó sangrenta. Parece ter a certeza que a sua angústia é mais valiosa que os automóveis Mercedes que assediam a sua pobre namorada e que os sentimentos verdadeiros são uma arma mortífera que decide a batalha.
Somos as vítimas incapacitadas desta guerra, sentimos as nossas cicatrizes, enquanto bebemos vinho barato com prostitutas anónimas em bares obscuros, lamentamos aquele jovem que surge dos subúrbios, cavalgando um poema de talento e avançando indefeso para a frente de batalha.

Abdel ilah Salhi
Trad. Pedro Amaral

quarta-feira, setembro 28, 2005

A visão enfraquecida


Michael Sweerts


A visão enfraquecida – meu poder,
Duas setas invisíveis de diamante;
A audição falha, cheia de trovoadas passadas
E de murmúrios da casa de meu pai;
Músculos endurecidos que se vergam
Como bois cinzentos arando o campo;
E à noite, por detrás de meus ombros
Não mais cintilam duas asas.

Sou uma vela consumida no festim.
Colhe minha cera ao alvorecer,
E esta página te contará um segredo:
Como chorar e onde ser orgulhoso,
Como distribuir o último terço
De prazer, e tornar fácil a morte,
E então, ao abrigo de um tecto qualquer,
Brilhar, como uma palavra, com luz póstuma.

Arsenii Tarkovski

segunda-feira, setembro 26, 2005

O dia já deu de si

O dia já deu de si,
e a noite entrou devagarinho, a medo.

Três indicadores luminosos
acenderam-se mesmo à minha frente:

Museu do Lego
Museu da Mulher
Museu da Luz

Apontavam os três
na mesma direcção.

Passei o vermelho,
virei no sentido oposto.

Chego a casa finalmente:

Esfrego então
(com as mãos limpas)
aquele unto de insónia
na cabeça.

Resulta, pois
acordo sempre nos meus braços
logo pela manhã.

terça-feira, setembro 20, 2005

Ai que estou perdido


Aldemir Martins

IX

Ai que estou perdido
num fundo de mato espantado mal-acabado

Me atolei num útero de lama
O ar perdeu o fôlego

Um cheiro choco se esparrama
Mexilhões estão de festa no atoleiro

Atrás de troncos encalhados
ouço guinchos de um guaxinim

Parece que vem alguém nesse escurão sem saída

- Olelé. Quem vem lá?
- Eu sou o Tatu-de-bunda-seca

-Ah compadre Tatu
que bom você vir aqui
Quero que você me ensine a sair desta goela podre

- Então se segura no meu rabo
que eu lhe puxo

(...)

"Cobra Norato", Raul Bopp

segunda-feira, setembro 19, 2005

A grande realidade


Georgia O'Keeffe

A grande realidade neutra do que eu estava vivendo me ultrapassava na sua extrema objectividade. Eu me sentia incapaz de ser tão real quanto a realidade que me estava alcançando – estaria eu começando em contorções a ser tão nuamente real quanto o que eu via? No entanto toda essa realidade eu a vivia com um sentimento de irrealidade da realidade. Estaria eu vivendo, não a verdade, mas o mito da verdade? Toda vez em que vivi a verdade foi através de uma impressão de sonho inelutável: o sonho inelutável é a minha verdade.
Estou tentando te dizer de como cheguei ao neutro e ao inexpressivo de mim. Não sei se estou entendendo o que falo, estou sentindo – e receio muito o sentir, pois sentir é apenas um dos estilos de ser. No entanto, atravessarei o mormaço estupefacto que se incha do nada, e terei que entender o neutro com o sentir.

“A Paixão Segundo G.H.”, Clarice Lispector
Relógio D’Água

sexta-feira, setembro 16, 2005

Cativo


Josef Liesler

Passar uma vida inteira com a permanente impressão que se entra pela porta das traseiras das coisas, encostado à parede de pés nus, frios, seguir a própria sombra e descobrir anões nos bolsos em vez de moedas para um café. Só por uma vez, ter a coragem, a souplesse de entrar pela porta de frente das coisas, exibir botas lustradas e um lenço vermelho, e ser galanteado por belas señoritas de leques e mantillas.
Enrolem lá essa passadeira vermelha - está um tamanho acima.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Invento o Mundo


Invento o mundo, segunda edição,
segunda edição corrigida,
no riso, para os idiotas,
no choro, para os melancólicos,
nos pentes, para os carecas,
nos sapatos, para os cães.

(…)

O Tempo (capítulo II)
tem direito a intrometer-se
em tudo, seja no bom ou no mau.
E contudo, o que corrói as montanhas
e afasta os mares e usa
estar presente no giro das estrelas,
não há-de ter o mais pequeno poder
sobre os amantes,
porque nus de mais,
porque abraçados de mais, o espírito
eriçado como pássaro num ombro.

A velhice é só moral
em vida de criminoso.
Por isso todos são jovens!
Sofrer (capítulo III)
não tira o peso ao corpo
e a morte
virá enquanto dormires.

E sonhares
que afinal nem é preciso respirar,
que o silêncio sem respiração
é boa música,
és pequeno, uma faúlha,
e se te tocam apagas-te.

Morte, só uma assim. Dor maior
experimentaste ao segurares uma rosa,
e terror maior sentiste
vendo a pétala no chão.

Mundo, só um assim. Viver,
só desta maneira. E morrer, como antes visto.
tudo o resto é como Bach
tocado em serra de circo.


Wislawa Szymborska, “Paisagem Com Grão de Areia”,
Trad. Júlio Sousa Gomes
Relógio D´Água