domingo, novembro 12, 2006
quinta-feira, novembro 09, 2006
Lua cheia
Está cientificamente provado que a lua cheia acelera o crescimento das garras e gera uivos como o post anterior* que, apesar de tudo, é baseado em factos verídicos.
*É mais difícil escrever um texto intencionalmente mau do que um elaborar um texto que possa ser considerado bom (N.E.).
*É mais difícil escrever um texto intencionalmente mau do que um elaborar um texto que possa ser considerado bom (N.E.).
quarta-feira, novembro 08, 2006
Lady Godiva do 2º Frente

Pela noitinha, a minha vizinha do 2º Fr gosta de passear nua pelos corredores e escadas do prédio, enquanto canta alegremente o Greensleeves. O Peeping Tom desta história (o senhor reformado da EDP do 2º Esq) disse-me que ela vive da pensão do ex-marido e que é mesmo ruiva. Porém, o senhor reformado da EDP ainda não ficou cego.
sábado, novembro 04, 2006
tenho uma cabeça

Paul Klee
tenho uma cabeça que me diz todos os dias que prescinde de mim, que já não depende de mim, que a sua matéria-prima é agora a chuva fria dos cães vadios, o cio, a vida pela vida, o sol que amarelece cartas de trunfo dos velhos-jardins, a morte seca que consome devagarinho, a cegueira dos que não querem ver, trabalho, trabalho, todos os dias, até ao último comprimido e, à noite, o sorriso desdentado de crianças que se fazem à velocidade do tédio do amor, la petite mort, os olhos fechados da minha avó, o gesto, a sopa que fumegava da enorme tigela e que agora é minha por direito, o vermelho lobo que traz paz.
quarta-feira, novembro 01, 2006
54-30-IN
A garagem estava vazia, meio iluminada. Sentia-me exausto, não tinha forças para subir as escadas e o elevador estava avariado (para não variar). Compreendo as corujas e os morcegos, a penumbra é aconchegante. Dei-me conta que estava a tentar decifrar a matrícula do meu carro. Outra vez. É um jogo que faço desde os tempos do ciclo e que agora raia a obsessão. Mas também pode ser um exercício de purga mental, de eliminação dos ficheiros da reciclagem. É claro que nunca ficam eliminados definitivamente, ficam ocultos para mais tarde recordar. Apaguei a ponta do cigarro, por pouco queimava os dedos. Normalmente, não fumo em dias úteis, mas apeteceu-me acender um, ali. Encostei-me no carro e comecei a bater timidamente com o pé no chão. Levantou-se uma pequena nuvem de pó que ganhou forma sob a luz escura. Nada. Absolutamente nada. De repente, o silêncio é interrompido pelo ruído do mecanismo do portão da garagem. A quietude do local é profanada pelas luzes dos faróis e pelo motor do carro de algum vizinho. Pego nas minhas coisas, fecho o carro, ganho coragem e dirijo-me para as escadas.
54-30-IN intermitente na cabeça.
54-30-IN intermitente na cabeça.
quinta-feira, outubro 26, 2006
Wolf Like Me
TV on the Radio "Wolf Like Me"
Abri um grave precedente ao introduzir este vídeo neste blog.
Não resisti - arranjem uma maneira de me perdoar.
Abri um grave precedente ao introduzir este vídeo neste blog.
Não resisti - arranjem uma maneira de me perdoar.
terça-feira, outubro 24, 2006
O prato de leite coalhado
Pedro e o Lobo (Prokofiev) pelo Theatre des Ombres
Quando um gatarrão amarelo e branco, emprestado e pelado, se disfarça de robin de bosques, pega sorrateiramente num cabide (ou cruzeta, dependendo da vossa longitude), mia ameaças de morte enquanto faz jogos de sombras na parede com a cauda... não há muito que um lobo possa fazer senão puxar os lençóis, virar-se para o outro lado e tentar dormir.
segunda-feira, outubro 23, 2006
As romãs
Duras romãs entreabertas
Pelo excesso dos grãos de ouro,
Eu vejo reis, todo um tesouro
Nascer de suas descobertas!
Se os sóis de onde ressurgis,
Ó romãs de entrevista tez,
Vos fazem, prenhes de altivez,
Romper os claustros de rubis,
E se o ouro seco cede enfim
Ante a demanda ainda mais dura
E explode em gemas de carmim,
Essa luminosa ruptura
Faz sonhar uma alma que há em mim
De sua secreta arquitectura.
Paul Valéry
Pelo excesso dos grãos de ouro,
Eu vejo reis, todo um tesouro
Nascer de suas descobertas!
Se os sóis de onde ressurgis,
Ó romãs de entrevista tez,
Vos fazem, prenhes de altivez,
Romper os claustros de rubis,
E se o ouro seco cede enfim
Ante a demanda ainda mais dura
E explode em gemas de carmim,
Essa luminosa ruptura
Faz sonhar uma alma que há em mim
De sua secreta arquitectura.
Paul Valéry
terça-feira, outubro 17, 2006
segunda-feira, outubro 16, 2006
mudança
oiço o vento que as pessoas assobiam quando volto para casa. retribuo com o meu único sorriso dessa tarde. dentes escovados desta vez. abro a porta de casa. ainda alguns espaços vazios. esfrego as mãos, mas não consigo aquecer. fotografias e caixas por abrir. o filho com vidros nas mãos de uma família que se esqueceu de o ser.
não, ainda não me mudei completamente.
não, ainda não me mudei completamente.
quinta-feira, outubro 12, 2006
double agent
segunda-feira, outubro 02, 2006
Brilho
Em terreno plano, sou perfeitamente ultrapassável e não me importo de comer o pó que os outros deixam para trás. Já em terrenos inclinados, sou impelido por uma força superior que me faz galgar que nem um doido e ultrapasso-me a mim mesmo. Acredito em mim, sem esperar nada em troca, sem aspirar a nada. Sou brillant tal como uma estrela antes de sua completa extinção, antes do buraco negro.
quarta-feira, setembro 27, 2006
Ícaro

Brueghel
Quando Auden escreveu sobre Ícaro
Olhou para o quadro de Brueghel numa neblina emoldurada de museu.
Não expôs os seus pupilos ao brilho directo da luz,
E não abriu as suas narinas ao odor do sábio,
E não se desnudou pelo toque de um raio que droga cada emoção
Que se derrete e escorre como cera.
E agora, aquele jovem rapaz que cai do céu:
Estive lá, em Creta, e vi com os meus próprios olhos
e como o camponês que continua a lavrar
e como cada barco elegante que apanhei durante a minha viagem
e como a oliveira que plantei
e como o riacho que inundei
e como a rocha que endureceu o meu coração,
não prestei atenção ao seu sofrimento,
eu também falei:
“ninguém pode saber – leia-se compreender –
aquilo que fazemos debaixo do sol".
quarta-feira, setembro 20, 2006
O poema disse:
(...)
O poema disse: "Nasci na mata
na boca de um caçador.
Fui criado por um pescador
numa cabana.
Ainda assim nunca trabalhei, apenas canto.
Cantei primeiro nas cortes:
depois fui roliço e formoso
mas agora ando pelas ruas,
meio esfomeado"
(...)
"Gandhy and Poetry", K. Satchidanandan
Trad. Pedro Amaral
O poema disse: "Nasci na mata
na boca de um caçador.
Fui criado por um pescador
numa cabana.
Ainda assim nunca trabalhei, apenas canto.
Cantei primeiro nas cortes:
depois fui roliço e formoso
mas agora ando pelas ruas,
meio esfomeado"
(...)
"Gandhy and Poetry", K. Satchidanandan
Trad. Pedro Amaral
terça-feira, setembro 05, 2006
Cebola

A cebola é outra coisa.
Planta sem intimidade.
Retintamente cebola
à última cebolidade.
Acebolada por fora,
cebulona no tutano,
poderia entra em si
sem se causar qualquer dano.
Em nós selva e estranhamento,
que uma pele mal sustenta
o nosso inferno uterino,
anatomia violenta,
e, na cebola, cebola,
um lisíssimo intestino.
La muitas vezes nua,
Até ao miolo mais fino.
Cebola ser sem contrários,
cebola bem sucedida,
na maior a mais pequena,
uma na outra metida,
e na seguinte outra ainda,
uma quarta e uma quinta.
Fuga em espiral para o centro,
eco no coro à medida.
Cebola eu bem te compreendo,
mais belo ventre do mundo,
tu própria em tuas auréolas
do teu sucesso profundo.
Em nós gorduras e nervos,
mucos, veias e recessos,
e ao kitch do ser perfeito
é-nos vedado o acesso.
Wislawa Szymborsja, trad. Júlio Sousa Gomes,
in Paisagem com Grão de Areia, Relógio d'Água, 1998
sábado, agosto 19, 2006
As baratuchas tintas leguminosas de Van Gogh

(...) As baratuchas tintas leguminosas de Van Gogh desgraçadamente compradas por vinte sous.
Van Gogh escarra sangue, como suicida dos quartos mobilados. As tábuas do chão no café nocturno inclinam-se e fluem como calha em fúria eléctrica. A estreita tina do bilhar lembra o cepo do caixão.
Nunca vi um colorido como este.
E que paisagens - de hortas e revisores de comboio! Acabaram de limpá-las de fuligem dos comboios suburbanos com um trapo molhado.
As telas de Van gogh, que a omoleta da catástrofe lambuzou, são didácticas como material escolar - mapas da escola Berlitz. (...)
"Guarda Minha Fala Para Sempre", Ossip Mandelstam
Assírio & Alvim
sexta-feira, agosto 11, 2006
Voz
Não tinha dinheiro
Penhoraram a minha voz
Sempre fui de poucas falas
Sempre adoptei a voz passiva:
A avó do Capuchinho foi comida pelo lobo
Devolveram-me a minha voz
Mal tratada e em tom mais grave
Gesticulo e esperneio
Durmo nu de cachecol.
Penhoraram a minha voz
Sempre fui de poucas falas
Sempre adoptei a voz passiva:
A avó do Capuchinho foi comida pelo lobo
Devolveram-me a minha voz
Mal tratada e em tom mais grave
Gesticulo e esperneio
Durmo nu de cachecol.
quarta-feira, agosto 09, 2006
Dar-se
Dar-se é quase tão necessário como respirar ou comer. A mãe que amamenta o seu filho está a dar algo de si para que o pequeno sobreviva, para que ela, no fundo, sobreviva também. Mais importante do que receber. Amar.
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