TV on the Radio "Wolf Like Me"
Abri um grave precedente ao introduzir este vídeo neste blog.
Não resisti - arranjem uma maneira de me perdoar.
quinta-feira, outubro 26, 2006
terça-feira, outubro 24, 2006
O prato de leite coalhado
Pedro e o Lobo (Prokofiev) pelo Theatre des Ombres
Quando um gatarrão amarelo e branco, emprestado e pelado, se disfarça de robin de bosques, pega sorrateiramente num cabide (ou cruzeta, dependendo da vossa longitude), mia ameaças de morte enquanto faz jogos de sombras na parede com a cauda... não há muito que um lobo possa fazer senão puxar os lençóis, virar-se para o outro lado e tentar dormir.
segunda-feira, outubro 23, 2006
As romãs
Duras romãs entreabertas
Pelo excesso dos grãos de ouro,
Eu vejo reis, todo um tesouro
Nascer de suas descobertas!
Se os sóis de onde ressurgis,
Ó romãs de entrevista tez,
Vos fazem, prenhes de altivez,
Romper os claustros de rubis,
E se o ouro seco cede enfim
Ante a demanda ainda mais dura
E explode em gemas de carmim,
Essa luminosa ruptura
Faz sonhar uma alma que há em mim
De sua secreta arquitectura.
Paul Valéry
Pelo excesso dos grãos de ouro,
Eu vejo reis, todo um tesouro
Nascer de suas descobertas!
Se os sóis de onde ressurgis,
Ó romãs de entrevista tez,
Vos fazem, prenhes de altivez,
Romper os claustros de rubis,
E se o ouro seco cede enfim
Ante a demanda ainda mais dura
E explode em gemas de carmim,
Essa luminosa ruptura
Faz sonhar uma alma que há em mim
De sua secreta arquitectura.
Paul Valéry
terça-feira, outubro 17, 2006
segunda-feira, outubro 16, 2006
mudança
oiço o vento que as pessoas assobiam quando volto para casa. retribuo com o meu único sorriso dessa tarde. dentes escovados desta vez. abro a porta de casa. ainda alguns espaços vazios. esfrego as mãos, mas não consigo aquecer. fotografias e caixas por abrir. o filho com vidros nas mãos de uma família que se esqueceu de o ser.
não, ainda não me mudei completamente.
não, ainda não me mudei completamente.
quinta-feira, outubro 12, 2006
double agent
segunda-feira, outubro 02, 2006
Brilho
Em terreno plano, sou perfeitamente ultrapassável e não me importo de comer o pó que os outros deixam para trás. Já em terrenos inclinados, sou impelido por uma força superior que me faz galgar que nem um doido e ultrapasso-me a mim mesmo. Acredito em mim, sem esperar nada em troca, sem aspirar a nada. Sou brillant tal como uma estrela antes de sua completa extinção, antes do buraco negro.
quarta-feira, setembro 27, 2006
Ícaro

Brueghel
Quando Auden escreveu sobre Ícaro
Olhou para o quadro de Brueghel numa neblina emoldurada de museu.
Não expôs os seus pupilos ao brilho directo da luz,
E não abriu as suas narinas ao odor do sábio,
E não se desnudou pelo toque de um raio que droga cada emoção
Que se derrete e escorre como cera.
E agora, aquele jovem rapaz que cai do céu:
Estive lá, em Creta, e vi com os meus próprios olhos
e como o camponês que continua a lavrar
e como cada barco elegante que apanhei durante a minha viagem
e como a oliveira que plantei
e como o riacho que inundei
e como a rocha que endureceu o meu coração,
não prestei atenção ao seu sofrimento,
eu também falei:
“ninguém pode saber – leia-se compreender –
aquilo que fazemos debaixo do sol".
quarta-feira, setembro 20, 2006
O poema disse:
(...)
O poema disse: "Nasci na mata
na boca de um caçador.
Fui criado por um pescador
numa cabana.
Ainda assim nunca trabalhei, apenas canto.
Cantei primeiro nas cortes:
depois fui roliço e formoso
mas agora ando pelas ruas,
meio esfomeado"
(...)
"Gandhy and Poetry", K. Satchidanandan
Trad. Pedro Amaral
O poema disse: "Nasci na mata
na boca de um caçador.
Fui criado por um pescador
numa cabana.
Ainda assim nunca trabalhei, apenas canto.
Cantei primeiro nas cortes:
depois fui roliço e formoso
mas agora ando pelas ruas,
meio esfomeado"
(...)
"Gandhy and Poetry", K. Satchidanandan
Trad. Pedro Amaral
terça-feira, setembro 05, 2006
Cebola

A cebola é outra coisa.
Planta sem intimidade.
Retintamente cebola
à última cebolidade.
Acebolada por fora,
cebulona no tutano,
poderia entra em si
sem se causar qualquer dano.
Em nós selva e estranhamento,
que uma pele mal sustenta
o nosso inferno uterino,
anatomia violenta,
e, na cebola, cebola,
um lisíssimo intestino.
La muitas vezes nua,
Até ao miolo mais fino.
Cebola ser sem contrários,
cebola bem sucedida,
na maior a mais pequena,
uma na outra metida,
e na seguinte outra ainda,
uma quarta e uma quinta.
Fuga em espiral para o centro,
eco no coro à medida.
Cebola eu bem te compreendo,
mais belo ventre do mundo,
tu própria em tuas auréolas
do teu sucesso profundo.
Em nós gorduras e nervos,
mucos, veias e recessos,
e ao kitch do ser perfeito
é-nos vedado o acesso.
Wislawa Szymborsja, trad. Júlio Sousa Gomes,
in Paisagem com Grão de Areia, Relógio d'Água, 1998
sábado, agosto 19, 2006
As baratuchas tintas leguminosas de Van Gogh

(...) As baratuchas tintas leguminosas de Van Gogh desgraçadamente compradas por vinte sous.
Van Gogh escarra sangue, como suicida dos quartos mobilados. As tábuas do chão no café nocturno inclinam-se e fluem como calha em fúria eléctrica. A estreita tina do bilhar lembra o cepo do caixão.
Nunca vi um colorido como este.
E que paisagens - de hortas e revisores de comboio! Acabaram de limpá-las de fuligem dos comboios suburbanos com um trapo molhado.
As telas de Van gogh, que a omoleta da catástrofe lambuzou, são didácticas como material escolar - mapas da escola Berlitz. (...)
"Guarda Minha Fala Para Sempre", Ossip Mandelstam
Assírio & Alvim
sexta-feira, agosto 11, 2006
Voz
Não tinha dinheiro
Penhoraram a minha voz
Sempre fui de poucas falas
Sempre adoptei a voz passiva:
A avó do Capuchinho foi comida pelo lobo
Devolveram-me a minha voz
Mal tratada e em tom mais grave
Gesticulo e esperneio
Durmo nu de cachecol.
Penhoraram a minha voz
Sempre fui de poucas falas
Sempre adoptei a voz passiva:
A avó do Capuchinho foi comida pelo lobo
Devolveram-me a minha voz
Mal tratada e em tom mais grave
Gesticulo e esperneio
Durmo nu de cachecol.
quarta-feira, agosto 09, 2006
Dar-se
Dar-se é quase tão necessário como respirar ou comer. A mãe que amamenta o seu filho está a dar algo de si para que o pequeno sobreviva, para que ela, no fundo, sobreviva também. Mais importante do que receber. Amar.
sexta-feira, julho 28, 2006
sábado, julho 22, 2006
Vaga de calor
Antes de ir de férias, Deus deixa as chaves a Judas, aperta bem as sandálias e lança um último e prolongado suspiro sobre os fiéis e infiéis.
Faz-se à estrada, não olha para trás.
Faz-se à estrada, não olha para trás.
quinta-feira, julho 20, 2006
Cantar de Amigo
À beira do rio fui dançar... DançandoMe estava entretendo,
Muito a sós comigo,
Ouando na outra margem, como se escondendo
Para que eu não visse que me estava olhando,
Por entre os salgueiros vi o meu amigo.
Vi o meu amigo cujos olhos tristes
Certo se alegravam
De me ver dançar.
Fui largando as roupas que me embaraçavam,
Fui soltando as tranças... Olhos que me vistes,
Doces olhos tristes, não no ireis contar!
Que o amor é lume bem eu sei... que logo
Que vi meu amigo
Por entre os salgueiros ,
Melhor eu dançava, já não só comigo
Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,
Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.
Que Deus me perdoe, que os seus olhos tristes
Assim ofertava
Minha formosura!
Se não fora o rio que nos separava,
Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,
Nem eu me amostrara tão de mim segura.
José Régio, Música Ligeira
Obrigado.
segunda-feira, julho 17, 2006
As Musas Cegas
(...)
Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito
nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. - E é uma pedra celeste.
Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.
Herberto Helder
Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito
nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. - E é uma pedra celeste.
Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.
Herberto Helder
quarta-feira, julho 12, 2006
Eu
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