quinta-feira, outubro 12, 2006

double agent













Basquiat


amarrei-lhe as mãos
bem presas
olhei-o bem nos olhos
e disse:

finalmente és meu.

provavelmente
vai tentar roer a corda
e fugir
mais uma vez

por um momento
deve ter acreditado
que era para seu próprio bem.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Brilho

Em terreno plano, sou perfeitamente ultrapassável e não me importo de comer o pó que os outros deixam para trás. Já em terrenos inclinados, sou impelido por uma força superior que me faz galgar que nem um doido e ultrapasso-me a mim mesmo. Acredito em mim, sem esperar nada em troca, sem aspirar a nada. Sou brillant tal como uma estrela antes de sua completa extinção, antes do buraco negro.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Ícaro














Brueghel

Quando Auden escreveu sobre Ícaro
Olhou para o quadro de Brueghel numa neblina emoldurada de museu.
Não expôs os seus pupilos ao brilho directo da luz,
E não abriu as suas narinas ao odor do sábio,
E não se desnudou pelo toque de um raio que droga cada emoção
Que se derrete e escorre como cera.

E agora, aquele jovem rapaz que cai do céu:

Estive lá, em Creta, e vi com os meus próprios olhos
e como o camponês que continua a lavrar
e como cada barco elegante que apanhei durante a minha viagem
e como a oliveira que plantei
e como o riacho que inundei
e como a rocha que endureceu o meu coração,
não prestei atenção ao seu sofrimento,
eu também falei:
“ninguém pode saber – leia-se compreender
aquilo que fazemos debaixo do sol".

quarta-feira, setembro 20, 2006

O poema disse:

(...)
O poema disse: "Nasci na mata
na boca de um caçador.
Fui criado por um pescador
numa cabana.
Ainda assim nunca trabalhei, apenas canto.
Cantei primeiro nas cortes:
depois fui roliço e formoso
mas agora ando pelas ruas,
meio esfomeado"
(...)

"Gandhy and Poetry", K. Satchidanandan
Trad. Pedro Amaral

terça-feira, setembro 05, 2006

Cebola


A cebola é outra coisa.
Planta sem intimidade.
Retintamente cebola
à última cebolidade.
Acebolada por fora,
cebulona no tutano,
poderia entra em si
sem se causar qualquer dano.

Em nós selva e estranhamento,
que uma pele mal sustenta
o nosso inferno uterino,
anatomia violenta,
e, na cebola, cebola,
um lisíssimo intestino.
La muitas vezes nua,
Até ao miolo mais fino.

Cebola ser sem contrários,
cebola bem sucedida,
na maior a mais pequena,
uma na outra metida,
e na seguinte outra ainda,
uma quarta e uma quinta.
Fuga em espiral para o centro,
eco no coro à medida.

Cebola eu bem te compreendo,
mais belo ventre do mundo,
tu própria em tuas auréolas
do teu sucesso profundo.
Em nós gorduras e nervos,
mucos, veias e recessos,
e ao kitch do ser perfeito
é-nos vedado o acesso.


Wislawa Szymborsja, trad. Júlio Sousa Gomes,
in Paisagem com Grão de Areia, Relógio d'Água, 1998

sábado, agosto 19, 2006

As baratuchas tintas leguminosas de Van Gogh


(...) As baratuchas tintas leguminosas de Van Gogh desgraçadamente compradas por vinte sous.
Van Gogh escarra sangue, como suicida dos quartos mobilados. As tábuas do chão no café nocturno inclinam-se e fluem como calha em fúria eléctrica. A estreita tina do bilhar lembra o cepo do caixão.
Nunca vi um colorido como este.
E que paisagens - de hortas e revisores de comboio! Acabaram de limpá-las de fuligem dos comboios suburbanos com um trapo molhado.
As telas de Van gogh, que a omoleta da catástrofe lambuzou, são didácticas como material escolar - mapas da escola Berlitz. (...)

"Guarda Minha Fala Para Sempre", Ossip Mandelstam
Assírio & Alvim

sexta-feira, agosto 11, 2006

Voz

Não tinha dinheiro
Penhoraram a minha voz

Sempre fui de poucas falas
Sempre adoptei a voz passiva:

A avó do Capuchinho foi comida pelo lobo

Devolveram-me a minha voz
Mal tratada e em tom mais grave
Gesticulo e esperneio
Durmo nu de cachecol.



quarta-feira, agosto 09, 2006

Dar-se

Dar-se é quase tão necessário como respirar ou comer. A mãe que amamenta o seu filho está a dar algo de si para que o pequeno sobreviva, para que ela, no fundo, sobreviva também. Mais importante do que receber. Amar.

sábado, julho 22, 2006

Vaga de calor

Antes de ir de férias, Deus deixa as chaves a Judas, aperta bem as sandálias e lança um último e prolongado suspiro sobre os fiéis e infiéis.
Faz-se à estrada, não olha para trás.

quinta-feira, julho 20, 2006

Cantar de Amigo

À beira do rio fui dançar... Dançando
Me estava entretendo,
Muito a sós comigo,
Ouando na outra margem, como se escondendo
Para que eu não visse que me estava olhando,
Por entre os salgueiros vi o meu amigo.

Vi o meu amigo cujos olhos tristes
Certo se alegravam
De me ver dançar.
Fui largando as roupas que me embaraçavam,
Fui soltando as tranças... Olhos que me vistes,
Doces olhos tristes, não no ireis contar!
Que o amor é lume bem eu sei... que logo
Que vi meu amigo
Por entre os salgueiros ,
Melhor eu dançava, já não só comigo
Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,
Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.

Que Deus me perdoe, que os seus olhos tristes
Assim ofertava
Minha formosura!
Se não fora o rio que nos separava,
Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,
Nem eu me amostrara tão de mim segura.


José Régio, Música Ligeira

Obrigado.

segunda-feira, julho 17, 2006

As Musas Cegas

(...)
Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito

nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. - E é uma pedra celeste.

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.

Herberto Helder

quarta-feira, julho 12, 2006

Eu












Posada, Jose Guadalupe

Mais consistente do que catarro na parede.
Mais forte do que o peido de burro atolado.
Mais saboroso do que um beijo da prima.
Mais grosso do que a cintura de um sapo.
Mais inútil do que mijar num incêndio.
Mais ligado do que o rádio de um condenado.

terça-feira, julho 11, 2006

Síndrome do Emigrante

Tenho saudades do meu país.
Daquele Portugal antes da C.E.E., das bigodaças fartas dos homens e do rouge excessivo das mulheres. Das botas de borracha coloridas das crianças e dos muitos cães vadios que enchiam as cidades.

(alguém pediu-me um poema, lamento)

domingo, julho 09, 2006

Novo Texto

Até aqui, tudo bem
(...)

Morte

Há dias em que não consigo deixar de pensar no poder da morte e na consequente mudança de hábitos que implica.

Ajuda-me a manter-me vivo.

quinta-feira, julho 06, 2006

Klimt













Apurem o resultado desta adição, se conseguirem:
J. Malkovith + Raoul Ruiz + G. Klimt =

Águas Furtadas

A "aguasfurtadas", revista de literatura, música e artes visuais acabade lançar o seu número nove. Com textos de Inês Lourenço, Tiago Gomes,Rui Lage, Pedro Ribeiro, Marcelo Rizzi, Adrienne Rich, Virginia Woolf, Filipe Guerra, entre muitos outros, para além de trabalhos inéditos de vários fotógrafos e artistas plásticos, e ainda de um CD com obras de Alexandre Delgado, Ruben Andrade, Dimitris Andrikopoulos e do grupo de jazz Espécie de Trio. Este número nove será apresentado no próximo dia 6 de Julho, a partir das 21h30, nos Espaços JUP (Rua Miguel Bombarda, 187), no Porto, com a realização de um espectáculo que incluirá as actuações dos projectos Mana Calórica e Las Tequillas. Haverá ainda outros motivos de interesse que estão a ser meticulosamente preparados pela equipa de coordenação da revista.
Entretanto, assista ao primeiro vídeo de promoção deste número nove aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=MZ4rtoXgMfw

terça-feira, julho 04, 2006

Ordem

É frequente dar por mim a fechar a torneira dos poucos bons conselheiros que existem na minha cabeça, cortando-lhes precisamente as suas cabeças, pouco antes de implorem por misericórdia.
Tenho de manter a ordem, mortificar o jejum moral e estar atento às fraquezas dos outros para importar os seus infernos e colá-los como lembretes nas minhas mãos.
Sou o actor e o espectador mais fiel e mais descontente de mim mesmo.

domingo, julho 02, 2006

Boa tarde

Há um gato ordinário que me corteja a partir da sua marquise do velho prédio da frente. No telhado, as crias das gaivotas caminham desajeitadas, espalhando penas pelo ar enquanto soltam pequenos guinchos.
Dois namorados despedem-se demoradamente, cá em baixo, na rua. Afastam-se por fim, ela olha para trás, mas ele segue em frente.
Na minha pequena varanda, apanho os últimos raios de sol desta boa tarde e sorrio sem motivo.
Aguardo visitas. A limpeza da casa pode ficar para depois.