domingo, julho 09, 2006

Morte

Há dias em que não consigo deixar de pensar no poder da morte e na consequente mudança de hábitos que implica.

Ajuda-me a manter-me vivo.

quinta-feira, julho 06, 2006

Klimt













Apurem o resultado desta adição, se conseguirem:
J. Malkovith + Raoul Ruiz + G. Klimt =

Águas Furtadas

A "aguasfurtadas", revista de literatura, música e artes visuais acabade lançar o seu número nove. Com textos de Inês Lourenço, Tiago Gomes,Rui Lage, Pedro Ribeiro, Marcelo Rizzi, Adrienne Rich, Virginia Woolf, Filipe Guerra, entre muitos outros, para além de trabalhos inéditos de vários fotógrafos e artistas plásticos, e ainda de um CD com obras de Alexandre Delgado, Ruben Andrade, Dimitris Andrikopoulos e do grupo de jazz Espécie de Trio. Este número nove será apresentado no próximo dia 6 de Julho, a partir das 21h30, nos Espaços JUP (Rua Miguel Bombarda, 187), no Porto, com a realização de um espectáculo que incluirá as actuações dos projectos Mana Calórica e Las Tequillas. Haverá ainda outros motivos de interesse que estão a ser meticulosamente preparados pela equipa de coordenação da revista.
Entretanto, assista ao primeiro vídeo de promoção deste número nove aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=MZ4rtoXgMfw

terça-feira, julho 04, 2006

Ordem

É frequente dar por mim a fechar a torneira dos poucos bons conselheiros que existem na minha cabeça, cortando-lhes precisamente as suas cabeças, pouco antes de implorem por misericórdia.
Tenho de manter a ordem, mortificar o jejum moral e estar atento às fraquezas dos outros para importar os seus infernos e colá-los como lembretes nas minhas mãos.
Sou o actor e o espectador mais fiel e mais descontente de mim mesmo.

domingo, julho 02, 2006

Boa tarde

Há um gato ordinário que me corteja a partir da sua marquise do velho prédio da frente. No telhado, as crias das gaivotas caminham desajeitadas, espalhando penas pelo ar enquanto soltam pequenos guinchos.
Dois namorados despedem-se demoradamente, cá em baixo, na rua. Afastam-se por fim, ela olha para trás, mas ele segue em frente.
Na minha pequena varanda, apanho os últimos raios de sol desta boa tarde e sorrio sem motivo.
Aguardo visitas. A limpeza da casa pode ficar para depois.

terça-feira, junho 27, 2006

Um ano de vida


Parabéns!
A todos os transeuntes perdidos e aficionados anónimos que vieram ter por acaso a esta toca.

Parabéns a vocês!

De poesia - mas o que é a poesia?


Alguns - quer dizer nem todos. Nem a maioria de todos, mas a minoria. Excluindo escolas, onde se deve os próprios poetas, serão talvez dois em mil.
Gostam -mas também se gosta de canja de massa, gosta-se da lisonja e da cor azul, gosta-se de um velho cachecol, gosta-se de levar a sua avante, gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia - mas o que é a poesia? Algumas respostas vagas já foram dadas, mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro como a um corrimão providencial.

Wislawa Szymborska

terça-feira, junho 20, 2006

quarta-feira, junho 14, 2006

Confessionário

"Nobody's loves me but my mother
and sometimes I think
she could be jiving too"
B.B. King

Depois de um destes dias de trabalho perfeitamente áridos e inconsequentes, senti que estava em falta para comigo mesmo e achei que deveria cumprir um dos sagrados sacramentos de deus: a Penitência ou Confissão. Há já algum tempo que não me penitenciava, era chegada a hora.

Além de ser muito mais barato de que ir a um psi, o sigilo sacramental não permite ao pastor divulgar os nossos pecados ao resto da comunidade, o que já não acontece com os psi's que devem gozar à brava quando resolvem descomprimir e trocar entre si as historietas dos seus clientes.

Depois de relatar os meus pecados por ordem de gravidade durante seis, sete minutos, houve um momento de silêncio por parte do meu confessor que me pareceu propositado. De repente, suspira e exclama solenemente:
- Eu amo-te, meu filho.
Mandou-me rezar 30 padres e 50 avés durante 5 dias para que deixasse de pensar em coisas absurdas e desnecessárias.
- Deves ir ao Seu encontro, não deves esperá-Lo.
Deu-me no fim um papel com uma morada em que dizia "LBV - aceitam-se voluntários". Abençoou-me, pigarreou e mandou-me embora. Antes de sair da Igreja, parei no altar de Sta. Teresinha, fascina-me a sua beleza púdica, o seu olhar inocente. Deposito sempre uma nota de dez euros na respectiva caixa de esmolas. Os querubins a seu lado piscaram-me logo o olho e sorriram como os miúdos que pedem em nome do Sto. António.

Bem, eu já tenho um LBV (Late Bottled Vintage) da Dow's de 1999, um bom ano. Acho que vou "passar" a última sugestão do seu padre e observar apenas a primeira, orar como um perdido nestas noites de insónia para depois sonhar com a minha Sta. Teresinha.

segunda-feira, junho 12, 2006

Gostos e Desgostos











Os gostos e os desgostos
levam ao poema
como podem levar
ao precipício
o poema fala do precipício
lá haverá choro
e ranger de dentes
e não haverá Kleenex
nem o Dr. Abílio Loffo
meu querido dentista
o poema fala do precipício
evitado a tempo
o mau poema não mata
(mais vale burro vivo
que sábio morto)

Adília Lopes

sexta-feira, junho 09, 2006

Um dia

Acordo. Adormeço, acordo outra vez. Salto da cama como um boneco de mola. Dou à corda antes de sair. Jogo à macaca no pátio da firma. Os meus colegas batem-me palminhas. Regresso a casa e corro. Tento ser mais rápido do que os meninos do remo que vogam no meio do douro.
A lua é cheia, mas a noite é vazia. Ouço homens do lixo e cães vadios a ladrarem. Jogo sozinho às escondidas na minha toca. Canso-me. Tenho um cubo mágico no lugar do coração que não pára de rodar. O lobo conta 96 carneiros e adormece por fim.

quarta-feira, junho 07, 2006

Fraco mas forte















Antônio Hélio Cabral


Fraco mas forte
Nada na mão
algo na v'rilha
remancho as noites
e troto os dias
entre tabaco
viris bebidas
fraco mas forte
de muitas vidas
(que eu já dormi
co'as duas mães
e as duas filhas
que vão à missa
com três mantilhas)

Nada na mão
algo na v'rilha
sofro comigo
luta intestina
(ao bem ao mal
a mesma alpista)
bebo contigo
cerveja uísqui
p'ra que se veja
mais rubra a crista

Nada na mão
algo na v'rilha
encontro a morte
no meio da vida
morte bonita
nada aflita
(ou é da minha
tão fraca vista?)
e tenho sorte

Nada na mão
algo na v'rilha
invisto contra
o zero puro
da minha vida

e duro, duro!

Alexandre O´Neill, in Poesias Completas

quarta-feira, maio 31, 2006

Vênus


Não tenho braços tal como a Vênus de Milo

Viro-me com alguma dificuldade e indolência
E não consigo ver as outras estátuas atrás de mim
Meus lábios de pedra, selados por castigo

Quero gritar como todas as mulheres
mas deus e a cidade não deixam.

Entre as minhas pernas
Tecidos rugosos cobrem
Desejo e frustação

O mais forte vencerá no fim.

Poeta/hamster

Os poetas são como aqueles hamsters naquelas gaiolas com cilindros giratórios: se param, morrem.
As mães hamster comem os seus filhos quando estão feridos ou doentes e sabem que não vão sobreviver. Também ocorre em situações de stress, insegurança, em ambientes não adequados para construir o ninho, etc. Não o fazem por ódio, mas por precaução e instinto.
Os hamsters e os poetas têm um antepassado comum. Há relatos de poetas que tentam a concepção, mas não conseguem dar à luz aquilo que mais desejam.
No entanto, não podem simplesmente parar e, assim, sofrem anos a fio presos nas suas gaiolas.

quinta-feira, maio 25, 2006

A/C da minha mana

Fui ao jardim da Celeste,
giroflé, giroflá,
fui ao jardim da Celeste,
giroflé, flé, flá

O que foste lá fazer?
giroflé, giroflá,
O que foste lá fazer?
giroflé, flé, flá.
Fui lá buscar uma rosa,
giroflé, giroflá,

Fui lá buscar uma rosa,
giroflé, flé, flá
Para quem é essa rosa,
giroflé, giroflá,

Para quem é essa rosa,
giroflé, flé, flá.
É para a menina Joana,
giroflé, giroflá,
É para a menina Joana,
giroflé, flé, flá

terça-feira, maio 23, 2006

Teu ombro estreito

Gaugin

Teu ombro estreito - para o chicote enrubescer,
Chicote enrubescer - o ar gelado queimar.

Tua mão infantil - para os ferros erguer,
Ferros erguer, e mais - cordames entrançar.

Teu frágil pé - nu pelos vidros esmilhados,
Pelos vidros, e mais - a areia ensanguentar.

E eu sou, vela negra, para arder por ti,
Por ti arder, e mais - a prece não ousar.


Ossip Mandelstam, in Guarda Minha Fala Para Sempre
Assírio & Alvim

sexta-feira, maio 19, 2006

le chat noir


Acordei hoje outra vez enroscado no chão. A minha a língua está cada vez mais rugosa e já não tenho sobrancelhas.
O terrível castigo abateu-se finalmente sobre mim. Já não consigo esconder a cauda que cresce quase dois centímetros todas as noites. Liguei para Deus que me reencaminhou para Kafka que me aconselhou vinho tinto e a cortar no leite. "Versuch stark!" e desligou.

domingo, maio 14, 2006

Amor como Depravação do Nervo Óptico

Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da definição vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e estúpidas que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja. E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista quanto a alma da pessoa enferma, vítima de sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.

Camilo Castelo Branco, in 'Coração, Cabeça e Estômago'

quinta-feira, maio 11, 2006

Egoísmo

Aqueles que me acusam de egoísmo e reclamam os meus sentimentos, estão a absorver-me e a tributar-me com o seu egoísmo disfarçado de preocupação. Se me conhecessem melhor, não insistiriam mais e, mais tarde, seriam inundados por uma torrente de emoções e ideias que os confunde.

No final, acabo sempre por partilhar o meu egoísmo com quase todos aqueles que estimo .

quinta-feira, maio 04, 2006

A Troca

Já há algum tempo que pondero trocar todas as minhas mulheres e os meus sapatos de pele por camelos e "puros sangues". Entrei em conversações com um emir e vários vizires e as coisas parecem estar bem encaminhadas. Vai ser bom para ambas as partes, creio.

Quero sentir outra vez o chão que piso e libertar-me da cor púrpura destas mulheres que me cega e entorpece.

Depois disto, só preciso de morrer para reclamarem a minha alma, mas para isso tinha de estar vivo.

Penso cada vez mais no lugar que Deus me reservou para mim e que me está prometido desde o dia em que nasci. Quero levar também a minha gata castrada comigo para poder sentir o seu pelo macio - decerto vou ficar nervoso sempre que Ele se aproximar de mim e me interpelar.