sexta-feira, junho 09, 2006

Um dia

Acordo. Adormeço, acordo outra vez. Salto da cama como um boneco de mola. Dou à corda antes de sair. Jogo à macaca no pátio da firma. Os meus colegas batem-me palminhas. Regresso a casa e corro. Tento ser mais rápido do que os meninos do remo que vogam no meio do douro.
A lua é cheia, mas a noite é vazia. Ouço homens do lixo e cães vadios a ladrarem. Jogo sozinho às escondidas na minha toca. Canso-me. Tenho um cubo mágico no lugar do coração que não pára de rodar. O lobo conta 96 carneiros e adormece por fim.

quarta-feira, junho 07, 2006

Fraco mas forte















Antônio Hélio Cabral


Fraco mas forte
Nada na mão
algo na v'rilha
remancho as noites
e troto os dias
entre tabaco
viris bebidas
fraco mas forte
de muitas vidas
(que eu já dormi
co'as duas mães
e as duas filhas
que vão à missa
com três mantilhas)

Nada na mão
algo na v'rilha
sofro comigo
luta intestina
(ao bem ao mal
a mesma alpista)
bebo contigo
cerveja uísqui
p'ra que se veja
mais rubra a crista

Nada na mão
algo na v'rilha
encontro a morte
no meio da vida
morte bonita
nada aflita
(ou é da minha
tão fraca vista?)
e tenho sorte

Nada na mão
algo na v'rilha
invisto contra
o zero puro
da minha vida

e duro, duro!

Alexandre O´Neill, in Poesias Completas

quarta-feira, maio 31, 2006

Vênus


Não tenho braços tal como a Vênus de Milo

Viro-me com alguma dificuldade e indolência
E não consigo ver as outras estátuas atrás de mim
Meus lábios de pedra, selados por castigo

Quero gritar como todas as mulheres
mas deus e a cidade não deixam.

Entre as minhas pernas
Tecidos rugosos cobrem
Desejo e frustação

O mais forte vencerá no fim.

Poeta/hamster

Os poetas são como aqueles hamsters naquelas gaiolas com cilindros giratórios: se param, morrem.
As mães hamster comem os seus filhos quando estão feridos ou doentes e sabem que não vão sobreviver. Também ocorre em situações de stress, insegurança, em ambientes não adequados para construir o ninho, etc. Não o fazem por ódio, mas por precaução e instinto.
Os hamsters e os poetas têm um antepassado comum. Há relatos de poetas que tentam a concepção, mas não conseguem dar à luz aquilo que mais desejam.
No entanto, não podem simplesmente parar e, assim, sofrem anos a fio presos nas suas gaiolas.

quinta-feira, maio 25, 2006

A/C da minha mana

Fui ao jardim da Celeste,
giroflé, giroflá,
fui ao jardim da Celeste,
giroflé, flé, flá

O que foste lá fazer?
giroflé, giroflá,
O que foste lá fazer?
giroflé, flé, flá.
Fui lá buscar uma rosa,
giroflé, giroflá,

Fui lá buscar uma rosa,
giroflé, flé, flá
Para quem é essa rosa,
giroflé, giroflá,

Para quem é essa rosa,
giroflé, flé, flá.
É para a menina Joana,
giroflé, giroflá,
É para a menina Joana,
giroflé, flé, flá

terça-feira, maio 23, 2006

Teu ombro estreito

Gaugin

Teu ombro estreito - para o chicote enrubescer,
Chicote enrubescer - o ar gelado queimar.

Tua mão infantil - para os ferros erguer,
Ferros erguer, e mais - cordames entrançar.

Teu frágil pé - nu pelos vidros esmilhados,
Pelos vidros, e mais - a areia ensanguentar.

E eu sou, vela negra, para arder por ti,
Por ti arder, e mais - a prece não ousar.


Ossip Mandelstam, in Guarda Minha Fala Para Sempre
Assírio & Alvim

sexta-feira, maio 19, 2006

le chat noir


Acordei hoje outra vez enroscado no chão. A minha a língua está cada vez mais rugosa e já não tenho sobrancelhas.
O terrível castigo abateu-se finalmente sobre mim. Já não consigo esconder a cauda que cresce quase dois centímetros todas as noites. Liguei para Deus que me reencaminhou para Kafka que me aconselhou vinho tinto e a cortar no leite. "Versuch stark!" e desligou.

domingo, maio 14, 2006

Amor como Depravação do Nervo Óptico

Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da definição vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e estúpidas que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja. E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista quanto a alma da pessoa enferma, vítima de sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.

Camilo Castelo Branco, in 'Coração, Cabeça e Estômago'

quinta-feira, maio 11, 2006

Egoísmo

Aqueles que me acusam de egoísmo e reclamam os meus sentimentos, estão a absorver-me e a tributar-me com o seu egoísmo disfarçado de preocupação. Se me conhecessem melhor, não insistiriam mais e, mais tarde, seriam inundados por uma torrente de emoções e ideias que os confunde.

No final, acabo sempre por partilhar o meu egoísmo com quase todos aqueles que estimo .

quinta-feira, maio 04, 2006

A Troca

Já há algum tempo que pondero trocar todas as minhas mulheres e os meus sapatos de pele por camelos e "puros sangues". Entrei em conversações com um emir e vários vizires e as coisas parecem estar bem encaminhadas. Vai ser bom para ambas as partes, creio.

Quero sentir outra vez o chão que piso e libertar-me da cor púrpura destas mulheres que me cega e entorpece.

Depois disto, só preciso de morrer para reclamarem a minha alma, mas para isso tinha de estar vivo.

Penso cada vez mais no lugar que Deus me reservou para mim e que me está prometido desde o dia em que nasci. Quero levar também a minha gata castrada comigo para poder sentir o seu pelo macio - decerto vou ficar nervoso sempre que Ele se aproximar de mim e me interpelar.

sexta-feira, abril 14, 2006

Como ficar a saber a idade de um cavalo, um poema de amor

















A melhor forma de ficar a saber a idade de um cavalo é olhando para os seus dentes.
Aos seis meses conta já com quatro molares.
Com dois anos tem seis, e continuam a crescer até que
os dentes de leite sejam substituídos pelos definitivos.
Com dez anos aparece uma rachadela nos molares de trás que continua a crescer
até metade do tamanho do dente quando o cavalo atingir os quinze anos.
A partir dos vinte cinco, a rachadela começa lentamente a desaparecer.
A melhor forma de ficar a saber a idade do amor é olhando para os seus dentes de leite.
Uma pequena cicatriz irá marcar aquilo que foi extraído ou deixado.

Ronny Someck, in "Gan'eden le orez"

terça-feira, abril 11, 2006

Judas













Giotto di Bondone


Ele não pediu nada a Judas, não pediu a nada ninguém, excepto para nos amarmos como Ele nos amou.
E eu tento seguir a Palavra d'Ele todos os dias e todas as noites.

quinta-feira, abril 06, 2006

A Perfeição

A PERFEIÇÃO

O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

Clarice Linspector

quinta-feira, março 23, 2006

O meu amigo

Ontem à noite, passei um semáforo vermelho, porque estava a pensar dentro do meu próprio carro. A pensar, veja lá. Irresponsável.
Mas não se preocupe, não há vítimas a registar, excepto eu.

Já em casa, cheguei à brilhante conclusão que nunca irei ser um tipo racional e inteligente como o meu caro e solitário amigo. E, como pode muito bem constatar, este blog é a prova disso (eu sei que, na realidade, o meu amigo queria cavalgar para aqui).

Ainda guardo um iô-iô fluorescente (lembra-se) e uns malabares para me distrair (não concentrar), posso emprestar-lhe, se quiser. É o máximo que posso fazer pelo transtorno causado. O meu ascendente em Libra permite-me ter uma enorme empatia pelo próximo, e sei exactamente o que lhe passou pela cabeça quando viu este blog.

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quinta-feira, março 16, 2006

Café


Willi Baumeister

Foi inesperado. Enquanto mexia o açúcar no café, o meu pai perguntou-me o que é que eu tinha.
- Não tenho nada, pai.
- De certeza? Ultimamente vejo-te um pouco cabisbaixo.
- Já disse que não tenho nada. Olha, e tu tás melhor?
- Tou... só te digo isto, não te arrependas como tantas vezes já te arrependeste das coisas que fizeste e daquelas que deixaste por fazer.
- ...
Estive mesmo para dizer que tinha um blog, e que já não havia nada a fazer, mas não disse. Matei logo a conversa.
E arrependi-me.
Outra vez.

segunda-feira, março 13, 2006

Como disse?

"Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação."

Andre Breton

terça-feira, março 07, 2006

Dos defeitos

Confesso que tenho apenas três defeitos - o primeiro é predefinido (por defeito), os outros dois existem por força das circunstâncias:
a) não sou mulher - ler "suficientemente" sublime e manipulador
b) sou cristão, apoio J.C. em toda a sua linha, mas encontro-me em fase de desmame
c) ainda não tenho filhos.

Tenho a certeza que vou fazer mais sentido quando conseguir ultrapassar estes defeitos.

domingo, março 05, 2006

Na cova dos leões









Rubens

Se Ele livra e salva, porque é que não é tenho a mesma sorte de Daniel quando esteve na cova dos leões?
Os bichos não me devoraram, lamberam-me os pés e sorriram para mim trocistas.
A minha carne será assim tão fraca?

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Mais Águasfurtadas

Na próxima quinta-feira, dia 23, a livraria "Sem Mais Nem Menos" (Rua Mártires da Liberdade, 130, Porto) recebe a primeira sessão de apresentação da revista. A sessão terá início às 22h00 e contará com a presença e participação de Ana Luísa Amaral, Rui Lage, José Carlos Tinoco, António Pedro Ribeiro entre outros. Para além de um pequeno concerto com o clarinetista João Pedro Santos que interpretará, entre outras, a peça de Rui Miguel Dias incluída no CD da revista.

E, claro, juntamente com "O Jogo" e "As Receitas d'Avó", comprem/peçam emprestado (mas não roubem que é feio) a revista literária do momento e daquele que vem a seguir.

A Traição


quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse


Alexandre O'Neill, Poesias Completas