terça-feira, fevereiro 14, 2006

Fada dos dentes - a vingança


Mais uma vez, enquanto conduzia, caíu-me um pedaço de dente, assim, do nada. A minha cara começa a ficar encovada antes do tempo, e acredito sinceramente que padeço de uma nova doença: a lepra dentária, muito pior do que a vulgar cárie.

Nunca mais, repito, n-u-n-c-a m-a-i-s, torno a discutir com a Fada dos Dentes, a única mulher que gostava de mim por aquilo que não era.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

O boato mais inútil

Miller e o Bukowski só não chegaram a vias de facto, devido às bolhas protectoras dos egos que envolviam e protegiam estes dois indivíduos com cadastro.

Há quem diga, porém, que foi o bafo de Charles que fez com que Henry recuasse no último segundo, nessa conferência.

Actualmente, o embate assumiu a forma de guerrilha nas livrarias e bibliotecas, locais que favorecem naturalmente este tipo de ocorrências.

domingo, fevereiro 12, 2006

Plantas de insónia



Ofereceste-me plantas de insónia
que tenho sabido muito bem tratar

Enrolam-se em mim
porque precisam do ar que respiro

Eu: sou de uma estranha estirpe
e o meu espelho sabe disso

Sorrio todas as noites à sua frente
e do seu poder de matar

A minha casa deixou de ser minha
para ser das plantas que me deixaste

Quando me deixaste.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Allah Akbar

Ontem à noite, depois de jantar em casa dos meus progenitores - que me proibiram terminantemente de comer ração seca para cães misturada com leite do dia - fui vítima de um ataque cobarde e miserável.
Enquanto caminhava em direcção ao meu bólide para recolher à minha toca, reparei, ao longe, na presença de vários gatos pretos em cima do carro.
Por mais tempo que viva, nunca hei-de esquecer aquele olhar de ódio que aqueles animais lançaram sobre mim, pouco antes da investida que se seguiu. Um dos felinos, que julgo tratar-se do gato Alfa (não sei se é assim que se designa o chefe dos felinos) abriu as goelas e gritou:
- Allah Akbar! Inch'Allah!!
De repente, saltaram vários gatos pretos na minha direcção, sacaram os seus sabres e tentaram atingir-me com vários golpes. Consegui abrir a custo a porta do carro, arranquei prego a fundo e creio que atrolopei um ou dois durante a fuga. Em seguida, ouvi vários estrondos que pareciam ter rebentado mesmo atrás de mim. Olhei pelo retrovisor e vi que os gatos eram, nada mais, nada menos, de que mártires suicídas, mas, para minha sorte, o detonador ou a bomba relógio deveriam estar regulados pela hora de Verão.

Mais tarde, ao tratar das feridas com vodka ucraniana - muito má para ser ingerida e apreciada - acalmei-me e consegui fazer a reconstituição dos factos: tenho o péssimo hábito de deixar revistas e livros espalhados na "chapeleira" do meu carro. Um dos livros era o último de Paulo Coelho, juntamente com uma revista que ilustrava os cartoons polémicos sobre o profeta Maomé.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

A Primeira Vez que Entendi



A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continou mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permaneceram
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.


Affonso Romano de Santa'Anna, in "Vestígios"

Águas Furtadas




Ele há coisas que recuso terminantemente fazer neste blog; uma delas é divulgar revistas literárias de qualidade irrepreensível:

Parabéns ao Rui Amaral e à Luísa Marinho e restantes conspiradores.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

o poeta

o poeta - esse mesmo que vende arrobas de mentiras sem saber exactamente porque o fez, para, em seguida, confessar-se a pés juntos na ponte de pedra e chamar por quem nunca o ouve - não faz mais do que aceitar o seu destino:

- desenhar grandes cogumelos vermelhos nas vidraças das salas de escolas primárias, sorrir, afastar-se e atirar pedrinhas, de longe.

emily


Nunca me senti em Casa - Cá me baixo
E nos Aprazíveis Céus
Não me sentirei em casa - eu sei -
Eu não gosto do Paraíso -

Porque é Domingo - sempre -
E o Recreio - nunca chega -
E o Éden serão solitárias
Claras Tardes de Quarta-feira -

Se, ao menos, Deus fizesse visitas -
Ou Sestas -
E deixasse de nos ver - mas dizem
Que Ele - por um Telescópio

Perpétuo nos olha -
Eu própria fugiria
D'Ele - e do Espírito Santo - e de Todos -
Não fosse o "Juízo Final"!


Emily Dickinson, "Esta é a Minha Carta ao Mundo e Outros Poemas"
Trad.: Cecília Rego Pinheiro
Assírio & Alvim

segunda-feira, janeiro 30, 2006

A pequena ratazana

A pequena ratazana cheirou o ar ao redor, engoliu a seco e arriscou cantar para o quarto minguante, o seu primeiro e único amor.

A cantilena era mais ou menos assim:

Le frisson
d'être bien
pour chanter
à cause de rien.

Le frisson
d'être curieux
c'est vraiement
marveilleux.

Le frisson
de n'être pas Mallarmé
sans aucune
responsabilité.

Le frisson
d'arriver
au fin
de cet hiver
.

Le frisson.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

A mão ao assinar este papel

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade de um país;
estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende o seu domínio
sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

Dylan Thomas, in "A Mão Ao Assinar Este Papel"
tradução de Fernando Guimarães
Assírio & Alvim

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Reis do Sonho




Mais vale, na verdade, o patrão Vasques que os Reis do Sonho; mais vale, na verdade, o escritório da Rua dos Douradores do que as grandes áleas dos parques impossíveis. Tendo o patrão Vasques, posso gozar a visão interior das paisagens que não existem. Mas se tivesse os Reis do Sonho, que me ficaria para sonhar? Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de possível ? (...) Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra não o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra está privado de o ser, em sonhos, outro rei que não o rei que é. A sua realidade não o deixa sentir.

Fernando Pessoa, in "Livro do Desassossego"

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Campanha Eleitoral

Durante a tarde de ontem, apoiantes dos candidatos Dr. Speedy Gonzalez e Eng.º Mickey Mouse trocaram insultos depois das respectivas máquinas partidárias terem agendado ratices e outros beijinhos no mercado do Bolhão, no Porto. A imagem de ambos ficou ainda mais fragilizada, depois do espectáculo pouco abonatório que se verificou nesse local obrigatório e emblemático da cidade invicta. Os ânimos exaltados dos apoiantes pouco favoreceram o já atribulado ambiente da campanha, acusando-se mutuamente do desvio de "códeas que pertencem ao povo", chegando mesmo a insultarem-se com termos indecorosos, como "lambe-camemberts" ou "caga-flamengos".

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Cada vez mais...

Cada vez mais, dou-me conta de que sempre levei uma vida contemplativa. Sou uma espécie de Brâmane ao contrário, meditando em si mesmo no meio da barafunda, que, com toda a sua força, se disciplina e desdenha da existência. Ou o pugilista com a sua sombra, que furiosamente, calmamente, socando no vazio, vigia a sua forma. Que virtuosismo, que ciência, que equílibrio, a facilidade com que acelera! Mais tarde, temos de aprender a aceitar o castigo com igual imperturbabilidade. Pela minha parte, sei como aceitar o castigo, com que serenidade produzo frutos e com que serenidade me destruo: em suma, actuo no mundo, não tanto para meu prazer, mas para dar prazer aos outros (são os reflexos dos outros que dão prazer, não os meus). Só uma alma cheia de desespero pode atingir a serenidade, e, para nos sentirmos desesperados, temos de ter amado muito e de ainda amar o mundo.

Blaise Cendrars, Une Nuit dans la Forêt

domingo, janeiro 08, 2006

A. não tão A.

7 dias, 4 horas, 32 minutos e 30 segundos sem saber o que é o cheiro do álcool.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Losa, Ilse Lieblich


Sim, lembro-me, claro que me lembro: ainda mal tinha saído da toca e ela deixava-me ficar migalhas de letras e de sonhos em cima da pedra cinza. Desejava avidamente explorar o mundo ao meu redor, quando, pouco a pouco, comecei a reparar no meu verdadeiro reflexo nas águas tumultuosas e a suster a respiração sempre que a brisa me roçava o pêlo...

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Fada dos dentes



Levei quatro estalos na boca da fada dos dentes sem saber porquê. Ela falava com sotaque carioca. Enfiou-me em seguida dedais dourados nos meus doze dedos, não fosse eu mexer onde não devia. Babei-me e voltei a babar-me e só pensava no tubo de sucção da saliva e o que aconteceria se o metesse no nariz.

Parti eu o meu porquinho cor de rosa para isto.

quinta-feira, outubro 27, 2005

O Pobre Tolo

A vida é uma luta entre os seus aspectos revelados e o limbo em que eles se perdem e ampliam até à suprema distância imaginável; uma luta entre a realidade e o sonho, a Carne e o Verbo. Entre nós, o Verbo não encarnou inteiramente. Somos corpo e alma, verbo encarnado e verbo não encarnado, a matéria e o limbo, o esqueleto de pedra e um fumo que o enconbre e ondula em volta dele, e dança aos ventos da loucura... E aí tendes um pobre tolo sentimental, uma caricatura elegíaca. Neste limbo interior, neste infinito espiritual, vive a lembrança de Deus que alimenta a nossa esperança, e transfigura esse bicho do Demónio, que anda por esses boulevards, vestido à moda ou coberto de farrapos.
Ardemos num incêndio de esperança, para que reste de nós uma lembrança, um fumo que sobe e não se apaga. Tudo é memória: um fumo leve, em mil visagens animadas; ou denso, em formas inertes e sombrias; e, ao longe, a grande fogueira invisível que os demónios e os anjos alimentam.

Vivo, porque espero. Lembro-me, logo existo.

Teixeira de Pascoaes, in "O Pobre Tolo"

quarta-feira, outubro 26, 2005


Milton Avery

Hipnos visita-me tarde, não morre de amores por mim. Enquanto aguardo ansiosamente pela sua chegada, já de madrugada, distraio-me com a leitura da bula do Victan e de uma antologia de Juan Luis Panero, que, diga-se de passagem, têm muita coisa em comum.

terça-feira, outubro 25, 2005

Cão




Cão passageiro, cão estrito
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão ali, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o ossoessencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal de poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moido de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção,
cão pré fabricado,
cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,
cão de olhos que afligem,
cão problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill

sexta-feira, outubro 21, 2005

Colgate - Todo o meu Amor




Vi hoje o passarinho azul: apaixonei-me pela minha pasta de dentes Colgate Efeito Branqueador, enquanto tomava o meu duche matinal. Engoli sem querer um pouco de pasta e aliviou-me as minhas habituais dores de cabeça matinais. Ainda extasiado, percebi que posso moldar as suas formas e conseguir aquelas curvas que qualquer homem (ou mulher) deseja.

É perfeita, mas fica sequinha se não enrosco a tampinha.