quarta-feira, janeiro 18, 2006

Campanha Eleitoral

Durante a tarde de ontem, apoiantes dos candidatos Dr. Speedy Gonzalez e Eng.º Mickey Mouse trocaram insultos depois das respectivas máquinas partidárias terem agendado ratices e outros beijinhos no mercado do Bolhão, no Porto. A imagem de ambos ficou ainda mais fragilizada, depois do espectáculo pouco abonatório que se verificou nesse local obrigatório e emblemático da cidade invicta. Os ânimos exaltados dos apoiantes pouco favoreceram o já atribulado ambiente da campanha, acusando-se mutuamente do desvio de "códeas que pertencem ao povo", chegando mesmo a insultarem-se com termos indecorosos, como "lambe-camemberts" ou "caga-flamengos".

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Cada vez mais...

Cada vez mais, dou-me conta de que sempre levei uma vida contemplativa. Sou uma espécie de Brâmane ao contrário, meditando em si mesmo no meio da barafunda, que, com toda a sua força, se disciplina e desdenha da existência. Ou o pugilista com a sua sombra, que furiosamente, calmamente, socando no vazio, vigia a sua forma. Que virtuosismo, que ciência, que equílibrio, a facilidade com que acelera! Mais tarde, temos de aprender a aceitar o castigo com igual imperturbabilidade. Pela minha parte, sei como aceitar o castigo, com que serenidade produzo frutos e com que serenidade me destruo: em suma, actuo no mundo, não tanto para meu prazer, mas para dar prazer aos outros (são os reflexos dos outros que dão prazer, não os meus). Só uma alma cheia de desespero pode atingir a serenidade, e, para nos sentirmos desesperados, temos de ter amado muito e de ainda amar o mundo.

Blaise Cendrars, Une Nuit dans la Forêt

domingo, janeiro 08, 2006

A. não tão A.

7 dias, 4 horas, 32 minutos e 30 segundos sem saber o que é o cheiro do álcool.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Losa, Ilse Lieblich


Sim, lembro-me, claro que me lembro: ainda mal tinha saído da toca e ela deixava-me ficar migalhas de letras e de sonhos em cima da pedra cinza. Desejava avidamente explorar o mundo ao meu redor, quando, pouco a pouco, comecei a reparar no meu verdadeiro reflexo nas águas tumultuosas e a suster a respiração sempre que a brisa me roçava o pêlo...

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Fada dos dentes



Levei quatro estalos na boca da fada dos dentes sem saber porquê. Ela falava com sotaque carioca. Enfiou-me em seguida dedais dourados nos meus doze dedos, não fosse eu mexer onde não devia. Babei-me e voltei a babar-me e só pensava no tubo de sucção da saliva e o que aconteceria se o metesse no nariz.

Parti eu o meu porquinho cor de rosa para isto.

quinta-feira, outubro 27, 2005

O Pobre Tolo

A vida é uma luta entre os seus aspectos revelados e o limbo em que eles se perdem e ampliam até à suprema distância imaginável; uma luta entre a realidade e o sonho, a Carne e o Verbo. Entre nós, o Verbo não encarnou inteiramente. Somos corpo e alma, verbo encarnado e verbo não encarnado, a matéria e o limbo, o esqueleto de pedra e um fumo que o enconbre e ondula em volta dele, e dança aos ventos da loucura... E aí tendes um pobre tolo sentimental, uma caricatura elegíaca. Neste limbo interior, neste infinito espiritual, vive a lembrança de Deus que alimenta a nossa esperança, e transfigura esse bicho do Demónio, que anda por esses boulevards, vestido à moda ou coberto de farrapos.
Ardemos num incêndio de esperança, para que reste de nós uma lembrança, um fumo que sobe e não se apaga. Tudo é memória: um fumo leve, em mil visagens animadas; ou denso, em formas inertes e sombrias; e, ao longe, a grande fogueira invisível que os demónios e os anjos alimentam.

Vivo, porque espero. Lembro-me, logo existo.

Teixeira de Pascoaes, in "O Pobre Tolo"

quarta-feira, outubro 26, 2005


Milton Avery

Hipnos visita-me tarde, não morre de amores por mim. Enquanto aguardo ansiosamente pela sua chegada, já de madrugada, distraio-me com a leitura da bula do Victan e de uma antologia de Juan Luis Panero, que, diga-se de passagem, têm muita coisa em comum.

terça-feira, outubro 25, 2005

Cão




Cão passageiro, cão estrito
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão ali, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o ossoessencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal de poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moido de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção,
cão pré fabricado,
cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,
cão de olhos que afligem,
cão problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill

sexta-feira, outubro 21, 2005

Colgate - Todo o meu Amor




Vi hoje o passarinho azul: apaixonei-me pela minha pasta de dentes Colgate Efeito Branqueador, enquanto tomava o meu duche matinal. Engoli sem querer um pouco de pasta e aliviou-me as minhas habituais dores de cabeça matinais. Ainda extasiado, percebi que posso moldar as suas formas e conseguir aquelas curvas que qualquer homem (ou mulher) deseja.

É perfeita, mas fica sequinha se não enrosco a tampinha.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Construtores de labirintos

Tenho de estar completamente só quando penso,
E no parapeito mais alto
Debruçado sobre a rua vazia.
A janela poeirenta da loja lá em baixo
Está cheia de fantasmas ao pôr do sol.

Ali vai o meu velho. Já tem a idade que tenho agora.
De olhos fechados
chama as criadas pelos seus nomes secretos:
Sto. Isaac, o sírio,
Sto. Nilo, que escreveu sobre a oração.
O vinho das ambiguidades eternas,
Se faz favor, à saúde do corvo
Sentado no cimo de uma igreja branca.

A sua vida também é um emaranhado fantástico.
Os nossos infortúnios são empreiteiros.
Esquecem-se sempre das janelas,
Fazem os tectos baixos e pesados.
«É só uma lua de papel», cantam...
Mas estou a ir demasiado depressa.

No fim de um corredor escuro
Há um fósforo aceso numa mão trémula.
«Ainda tenho pavor do palco»,
Diz a bela mulher,
E depois guia-nos por entre guarda-roupas
Com espelhos e portas empenadas,
Onde estão pendurados vestidos sussurrantes,
Espartilhos sussurrantes, sapatos com botões -
Do tipo que se usaria para cavalgar uma cabra.

A sua filha, dizem-nos, está tísica.
Há uma marca do polegar oleoso da morte
na sua face angélica:
Ela quer que eu brinque debaixo da mesa
Dos jogadores de cartas silenciosos.

Brincamos e é como o palácio em Cnossos.
A memória, o único fósforo queimado do meu coração:
A sua mão guiando-me nas ruínas,
E as cartas sussurrando sobre as nossas cabeças
Que a nossa juventude e o nosso amor aturdiram.


Charles Simic
Trad. José Alberto Oliveira
Assírio & Alvim

quarta-feira, outubro 19, 2005

Allegro molto capriccioso


Cézanne

Uma dieta à base de pêssegos e piña colada (ok, eu cedo, com um pouco de licor do Faial para voar um bocadinho) ajudaria bastante a levantar a moral da população portuguesa.

P.S. (Post Scriptum, para que não haja confusões):
Este post não possui qualquer pretensão política.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Presente

O Presente é-me oferecido de bandeja todos os dias, mas sinto que o subestimo. Nunca sei quando inicia ou termina, está sempre em curso, de forma contínua, e isso cria-me uma certa confusão. Não presto atenção suficiente, o agora passa-me ao lado e, portanto, torna-se automaticamente em Passado. Por outro lado, aborrece-me de morte fazer planos para o Futuro.

Bem, este post já era.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Corridinho


Alphonse Mucha

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

Adélia Prado, "Poesia Reunida", Siciliano - 1991, São Paulo

Sangue do meu sangue

Gosto de dar sangue.
É bom saber que a vaidade e o egoísmo que corre nas minhas veias vão ser vertidos para outros que precisam bem mais do que eu. Vejo pessoas demasiado boas à minha volta, é preciso haver mais egos distintos e arrebatados.
Além disso, tenho esta necessidade de me identificar com alguém que seja quase tão sanguíneo quanto eu.

terça-feira, outubro 11, 2005

Sol a Sol


Basquiat

(...)
Diz um: eu sou o sábio de domingo.
Agora não me ocupo de dias úteis, de remendos d'alma,
De fragilidades.
Esperem por mim mas só depois
Da missa.

Diz outro: a ética é grega de nascença
Movemo-nos por números, já sentenciava Pitágoras.
Não cunhamos moeda, não sujamos as mãos
Nos improvisados remos do naufrágio.
O nosso destino é perguntar.

Parece que deus quis que não nascesse a obra.
Nascer que nasça o sol
E é bastante.
Quem pergunta ao sonho pelo homem
De serviço? (...)

Armando Silva Carvalho

segunda-feira, outubro 10, 2005

The Big Lebowski

Se os irmãos Coen me tivessem dado a oportunidade para escolher um papel neste filme, seria um dos mecos do famoso salão de bowling onde quase tudo se decide.

Caso não fosse possível, gostaria de ser Jesus, dude.

quinta-feira, outubro 06, 2005

A Frente do Amor


Egon Schiele

Aquilo que aprendemos sobre o amor advém de romances, histórias e poemas. A par com a pobreza, frustação e horizontes cortados, começamos por apaixonamo-nos com uma tranquilidade terrível e caímos em sofrimento de uma forma muito mais fácil. No entanto, mantemo-nos fiéis à idéia de que o amor não vive nem existe para além dos livros.
As derrotas amorosas destruíram muitos de nós, levaram outros tantos à vadiagem e fez com que muitos outros desaparecessem. Apesar disso, aparecem, de quando em vez, alguns guerreiros; um jovem que, na maior parte dos casos, agita uma bandeira esfarrapada, ridiculariza o peso esmagador da realidade e a sua mó sangrenta. Parece ter a certeza que a sua angústia é mais valiosa que os automóveis Mercedes que assediam a sua pobre namorada e que os sentimentos verdadeiros são uma arma mortífera que decide a batalha.
Somos as vítimas incapacitadas desta guerra, sentimos as nossas cicatrizes, enquanto bebemos vinho barato com prostitutas anónimas em bares obscuros, lamentamos aquele jovem que surge dos subúrbios, cavalgando um poema de talento e avançando indefeso para a frente de batalha.

Abdel ilah Salhi
Trad. Pedro Amaral

quarta-feira, setembro 28, 2005

A visão enfraquecida


Michael Sweerts


A visão enfraquecida – meu poder,
Duas setas invisíveis de diamante;
A audição falha, cheia de trovoadas passadas
E de murmúrios da casa de meu pai;
Músculos endurecidos que se vergam
Como bois cinzentos arando o campo;
E à noite, por detrás de meus ombros
Não mais cintilam duas asas.

Sou uma vela consumida no festim.
Colhe minha cera ao alvorecer,
E esta página te contará um segredo:
Como chorar e onde ser orgulhoso,
Como distribuir o último terço
De prazer, e tornar fácil a morte,
E então, ao abrigo de um tecto qualquer,
Brilhar, como uma palavra, com luz póstuma.

Arsenii Tarkovski

segunda-feira, setembro 26, 2005

O dia já deu de si

O dia já deu de si,
e a noite entrou devagarinho, a medo.

Três indicadores luminosos
acenderam-se mesmo à minha frente:

Museu do Lego
Museu da Mulher
Museu da Luz

Apontavam os três
na mesma direcção.

Passei o vermelho,
virei no sentido oposto.

Chego a casa finalmente:

Esfrego então
(com as mãos limpas)
aquele unto de insónia
na cabeça.

Resulta, pois
acordo sempre nos meus braços
logo pela manhã.

terça-feira, setembro 20, 2005

Ai que estou perdido


Aldemir Martins

IX

Ai que estou perdido
num fundo de mato espantado mal-acabado

Me atolei num útero de lama
O ar perdeu o fôlego

Um cheiro choco se esparrama
Mexilhões estão de festa no atoleiro

Atrás de troncos encalhados
ouço guinchos de um guaxinim

Parece que vem alguém nesse escurão sem saída

- Olelé. Quem vem lá?
- Eu sou o Tatu-de-bunda-seca

-Ah compadre Tatu
que bom você vir aqui
Quero que você me ensine a sair desta goela podre

- Então se segura no meu rabo
que eu lhe puxo

(...)

"Cobra Norato", Raul Bopp