quinta-feira, setembro 01, 2005

O Diabo Voyeur


Rob Elliot

O DIABO VOYEUR

Com as unhas presas na porta
se debate a alma de um sujeito.
Seus dedos inchados e o olho lúbrico e impotente
Guincham à sombra de um maldito divã.
Era um voyeur do inconsciente o pobre diabo.
Escutava com o olhar os prazeres secretos da carne.
Olhava descortês o tremor da voz nos amantes.
Apaixonava-se com a crosta do rancor
e a ameaça de matar a quem alguma vez quis.
Estava ali concupiscente o demônio entre as pernas,
metendo o nariz e o rabo onde não era chamado.
Na inconsciência, digo, porque o gênio se perde em desfigurações.
Há um diabo cativo na palavra.
Veste-se de anjo da guarda e responde pelo nome de Esperança
ou Caridade, não sei, parece Jocasta com a voz de Édipo,
ou então Tirésias espiando com seus olhos cegos.

José Ángel Leyva, trad. Floriano Martins

segunda-feira, agosto 29, 2005

Momento


Marc Chagall

Foi nesse momento, nesse preciso e fulgurante momento, em que o Ministro da Saúde do Uganda, Maj. Gen. Jim Muhwezi, foi mordido pelo mosquito Anopheles gambiae, em que Marie Deschamps de Neully sur Seine, Paris, soltou um longo e sentido gemido provocado pela sua prima carnal Gwendoline, violando assim o 3º mandamento da Lei de Deus ao invocar o nome do Santo Deus em vão, em que Lars Leijonborg de Gotemburgo partiu o bico de um lápis do IKEA, em que o famoso matador, "Juanito de Pura", desferiu a última estocada num belo miura na praça de touros de La Alpujarra, Espanha, foi, nesse momento, que deveria ter tirado a mordaça do meu subconsciente, ter ouvido pacientemente o que ele tinha para me dizer para, em seguida, esmurrá-lo mesmo no meio dos dentes.

Fui um momento lento demais.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Peripatetismo - Parte II

O fresco do altar apresentava já as marcas indeléveis do tempo, mas não deixava de ser uma obra de qualidade mediana, possuíndo pormenores bastante singulares que fizeram despertar a minha atenção. Subi então os degraus, contornei o altar e aproximei-me do quadro.

Era dominado por uma babelesca, imponente torre de marfim, em forma de chifre, que tinha como pano de fundo uma daquelas paisagens renascentistas, quase etéreas. A parede da torre estava incrustada com rubis e diamantes e havia uma espécie de friso dourado que a circundava, parecendo dividir a parte de cima do resto da torre. Ainda no "chifre", podia ver-se uma magnífica sacada onde surgia alguém que, pelas vestes brancas e pelo solidéu, parecia ser um papa. Estava a sorrir, enquanto abençoava a lua e o sol que retribuíam o sorriso de volta.

Este papa possuía umas longas tranças ruivas que caíam fartas até à base da torre. As criaturas de Bosch seriam consideradas normais quando comparadas com aquilo que observei de seguida: vários bispos ou cardeais, não sei bem, estavam a tentar trepar pelas tranças de sua santidade; não manifestavam qualquer sinal de esforço, subiam com as expressões inertes, absolutamente neutras. Os pontos negros na tela pareciam ser corvos que esvoaçavam em seu redor.

Uma multidão uniforme de padres e monges concentrava-se como carneiros na praça da torre, agitando fervorosamente bíblias pelos ares, enquanto outros seguravam cruzes de madeira.

Dois monges gigantescos, completamente desproporcionais às restantes figuras, estavam representados curvados nas extremidades do estranho quadro: um deles estava a chorar copiosamente e afagava um lobo que lhe lambia a mão; o outro, o do lado esquerdo, tinha a fúria espelhada no rosto e estava a queimar com um archote uma pilha enorme de livros amarelecidos.

Mais uma nota do mesmo velho safado


Sidney Goodman

Simplesmente não existe muita mudança em lugar nenhum. A coisa em Praga escaldou um monte de gente que havia esquecido a Hungria. Eles passeiam pelos parques com o ídolo de Che, com fotografias de Castro em seus amuletos, fazendo OOOOOOOOMMMMMOOOOOOOMMM enquanto William Burroughs, Jean Genet e Allen Ginsberg os lideram. Esses escritores ficam delicados, malucos, uns cocozinhos, umas fêmeas - não homos mas fêmeas - e se eu fosse tira eu não hesitaria em lhes cacetear os seus cérebros confusos. Enforquem-me por isso. O escritor das ruas está tendo a sua alma chupada como um caralho pelos imbecis. Existe apenas um único lugar para se escrever e é SOZINHO numa máquina de escrever. Um escritor que tem que ir para as ruas é um escritor que não conhece as ruas. Eu já vi um número suficiente de oradores de fábricas, puteiros, prisões, bares e parques para os quais seriam necessários 100 homens e umas 100 vidas. Sair para as ruas quando você tem um NOME é fazer o caminho mais fácil - eles mataram Thomas e Behan com seu amor, seu uísque, sua idolatria, sua buceta e eles de certa forma assassinaram pelo menos a metade de uma centena de outros. QUANDO VOCÊ DEIXA SUA MÁQUINA DE ESCREVER VOCÊ DEIXA A SUA METRALHADORA E OS RATOS SURGEM AOS BORBOTÕES. Quando Camus começou a dar palestras perante as academias a sua escrita morreu. Camus não começou como palestrante, começou como escritor; não foi um acidente de automóvel que o matou.

"Notas de Um Velho Safado" (Ed. Brasileira), BUKOWSKI, Charles

segunda-feira, agosto 22, 2005

Shirley Ann Eagles


Jiri ANDERLE

Na vitrina lê-se Livros Raros
e Usados sob o azul inclinado
de um toldo - mesmo em frente
à glacial cafetaria de franchise
onde o dia destrata o desejo
e não se pode fumar. Subo
aos pequenos gabinetes
mergulhados no doce bafio
da literatura e percorro de A
a Z as espinhas estreitas

e rachadas da poesia. É o sítio
mais vazio de Novembro
e o que mais me reconforta;
e o livro que escolho, por metade
de uma libra, traz no frontispício
um nome e uma morada: Shirley Ann
Eales, de Scottsville - um sumido
autógrafo de maiúsculas magras
e triangulares onde a imaginação
encontra por enquanto pretexto

e oxigénio suficientes para arder.
O teu livro teve outra existência,
pertenceu a outra casa, a outra mesa
de cabeceira - e o pensamento,
de tão óbvio, conjura de repente
uma vertigem, é um corredor
abrupto para a imensidão do mundo
onde trafica o acaso. Ah, sabemos
que a vida é improvável se damos
por nós a cismar, a meio de uma tarde

insípida, numa mulher desconhecida
que lia poemas em Scottsville, nos anos
70. Mas haverá aqui alguma espécie
de sentido, algum sinal guardado
para alguém mais sábio ou inocente
do que eu? Não sei quem és
nem onde estás agora, Shirley Ann,
mas como seria belo se pudesses
um dia encontrar, por obra da mesma
sorte, o teu nome nestes versos.


Rui Pires Cabral, "Longe da Aldeia"

sexta-feira, agosto 19, 2005

Peripatetismo - Parte I

Consegui arrastar-me até à casa de deus onde pude finalmente encontrar o alívio para o meu prolongado sofrimento. A canícula que se fazia sentir naquela tarde não me deixava respirar. Como é sabido, deus (através do homem, já se sabe), protege a sua casa com as suas mãos, em forma de concha, o que faz com que todas as igrejas, capelinhas e ermidas sejam lugares bastante aprazíveis no Verão, onde o ar é mais fresco, convidando assim a um recolhimento abnegado.
Sentei-me no último banco, limpei o suor da testa e descansei, mais aliviado. Porém, tive de me levantar logo de seguida, pois comecei a sentir umas picadas na zona lombar. Estes bancos de madeira não são propriamente ergonómicos, nem foram feitos para o ser, claro está.
À medida que deambulava pela nave central, comecei a contemplar a arte sacra. Perguntei a mim mesmo como é que poderia haver tantas nossas senhoras. Impressionou-me particularmente uma pintura de S. Sebastião trespassado por flechas. De súbito, um clarão de luz irrompeu diante de mim, deixei de ver e senti uma força tão grande sobre a minha cabeça e sobre os meus ombros que me fez prostrar diante do altar...

terça-feira, agosto 16, 2005

Embriaga-te


Mark Pilon

Deves andar sempre bêbado. É a única solução.
Para não sentires o tremendo fardo do tempo que te pesa sobre os ombros e te verga ao encontro da terra, deves embriagar-te sem cessar: com vinho, com poesia, ou com a virtude. Escolhe tu, mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas de uma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez atenuada, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que passou, a tudo o que murmura, a tudo o que canta, a tudo o que fala; pergunta-lhes que horas são: “São horas de embriagares. Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem descanso.
Com vinho, com Poesia, ou com a virtude.

Charles Baudelaire

quarta-feira, agosto 10, 2005

Poema sobre o Amor


Mordecai Ardon


Hoje de manhã, ao acordar,
pensei:
hoje, o amor vai assaltar-te
embora não soubesse como ele é
nem o que vale.

Eu acho que as coisas realmente grandes na história
(tanto na história UNIVERSAL
como na história pessoal
mas talvez eu esteja errado)
de modo nenhum são feitas por amor
ou em amor ou qualquer coisa assim;
eu acho que as coisas realmente grandes
se fazem por razões completamente diferentes.
Por exemplo, a SIEMENS não constrói por amor
uma barragem em Cabora Bassa, e também
uma revolução do amor não
levará a nada.
Claro que se pode tentar
mas eu não acredito nisso.

E tentei
explicar isto à mulher-do-meu-amor
(que acordou logo a seguir a mim
talvez eu a tenha acordado
ao erguer-me para olhar para o despertador
passava pouco das onze e era sábado)
e ela disse
que não fazia SENTIDO
eu estar AGORA a explicar-lhe isto
e eu dei-lhe razão
e
ela
deitou a mão à minha piça. Depois
fizemos amor até ao meio-dia-e-meia
sem que daí
resultasse
nada de verdadeiramente grande
digamos: pelo menos com metade da grandeza
dos esforços de Leviné em Munique em 1919.

Jürgen Theobaldy
Trad. João Barrento

sexta-feira, agosto 05, 2005

A Caldeira

O acesso à Caldeira da ilha faz-se por um túnel estreito onde o vento sibilava continuamente. Pude finalmente apreciar a beleza avassaladora daquelas paragens que esmagaria os sentidos do viajante mais rodado e que parecia estar toda concentrada naquele sítio.

Aproximei-me devagar das margens da célebre Caldeira, sentei-me, inspirei fundo e deitei-me, entorpecido com tanta beleza. Deixei-me adormecer enquanto admirava o carrocel de nuvens no céu.

Devo ter dormido uma ou duas horas, acordei com uma valente dor de cabeça. O céu estava encoberto, mas quase se podia apalpar o calor húmido do ar.

Foi então que notei a presença de dois indíviduos que estavam a meu lado. Mais dois turistas, pensei eu. Reparei no estado andrajoso das roupas que traziam, a pele estava bastante queimada pelo sol, e ostentavam os dois grandes barbas desgrenhadas. Um deles olhou placidamente para mim e disse:
- Eu sou Saulo de Tarso. O meu amigo chama-se Mateus e é da Palestina, de uma pequena aldeia chamada Cafarnaum.
Apresentei-me, disse que este local era lindíssimo ou algo do género, quando, de súbito, Saulo levantou-se e exclamou, quase em estado de delírio:
- Meu jovem, o fim do mundo está próximo! Já o disse aos Coríntios e volto a dizê-lo: casa-te e evita o pecado mortal. A fornicação fora do casamento é altamente reprovável pelo Nosso Deus Todo Misericordioso. Abandona a vida pecaminosa que levas, irmão, e pratica o celibato até ao dia do teu matrimónio.
Mateus anuiu com a cabeça e acrescentou num tom de voz mais calmo, mas com uma segurança inabalável:
- Ainda que não pratiques adultério, meu irmão, a cobiça pela propriedade alheia - pela mulher do próximo - é condenável e profundamente desaconselhável.

Dito isto, pegaram nos respectivos cajados e começaram a descer a encosta verde em direcção à base da Caldeira, acenando-me enquanto se afastavam.

quarta-feira, agosto 03, 2005

Sena e a poesia


Wayne Thiebaud

A poesia não é essa alegria de fazer alguma coisa que nem todos os outros fazem, e que eles aliás desprezam. Não é também esse prazer enganoso de que possui com palavras o amor que lhe escapa, as coisas que não consegue, as ideias que perpassam pela sua cabeça, antes ou depois da solidão. A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa. Já pensou no que isso é (…) trairá tudo para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o «si mesmo» está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu, sim, mas também o senhor o vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor viveu ou não (…).
É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida ?
(…)
Sempre seu (que o manda para o inferno que é a nossa província).

Jorge de Sena, J.L., 1981
A IMPERFEIÇÃO DA FILOSOFIA, Maria Filomena Molder,
Relógio d’Água /col.Antropos, Lisboa 2003

quinta-feira, julho 28, 2005

Tarde


R.B. Kitaj

Tarde

Esta é uma tarde completa:
centenas de cacos de solidão
Eu conto
Eu comparo
Eu formo
Eu junto
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento manter este instante,
este fragmento de tempo, completamente dissecado.
Tenho os olhos arregalados.
Sinto o toque áspero e louco
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco

Vasant Abaji Dahake
Trad. por Pedro Amaral

terça-feira, julho 26, 2005

Quartzo, Feldspato e Mica

O "Quartzo, Feldspato e Mica" encerrou a sua emissão há uma semana atrás.
Sinto-me na obrigação de afirmar aqui (com algum atraso, eu sei) que o "Micas" foi um dos pontos de partida que me levou a conceber este blog, "toca do lobo", o que queiram chamar. Foi um prazer ler os seus posts que foram autênticos balões de oxigénio para mim e lufadas de ar fresco na nossa blogosfera. Creio não falar apenas em meu nome.

Obrigado Rui.
Venham agora mais "dias felizes".

Whale watching

Descobri recentemente que os Portugueses não são grandes fãs nem de cetáceos nem de hortênsias. A julgar pelo tamanho das filas dos check-in para Las Palmas ou Tenerife no aeroporto de Lisboa, julgo que apreciam muito mais o convívio fraternal e pacífico das praias espanholas, bem como os famosos hóteis de cinco estrelas onde não faltam entertenimento a rodos e assistência "au pair".
Bem, mas é claro que a Inveja é uma coisa muito feia.

sexta-feira, julho 15, 2005

Imagem Recuperada


Schiele

Espetados os rosados mamilos, gotas de água
Deslizam nos teus peitos, pequenos
Na sombria racha do teu cu, que treme
Entre ondas clareadas pela luz das estrelas,
Num tíbio mar de fim de verão.
Agora, anos depois, essas mesmas gotas
Resvalam ainda pela pele suave do teu ventre,
O teu escondido umbigo,
O áspero e negro pêlo do teu sexo,
Frágeis e mínimas pegas de orvalho nos teus músculos.
Precária intimidade, face ao tempo acossado,
E de repente nos teus olhos, relâmpago na sombra,
A luz daquela noite, as tuas mães debatendo-se no ar,
Aquele galope branco da espuma chegando.

Juan Luís Panero, “Antes que chegue a Noite”
Versões de António Cabrita e Teresa Noronha
Fenda

O Meu Carácter


Almada Negreiros

Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.
Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente.
Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do autodomínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito.

Fernando Pessoa, "Notas Autobiográficas e de Autognose"

quarta-feira, julho 13, 2005

O arauto

Sempre me fascinaram as pregas que se formam nas pontas dos dedos depois de um banho quente. As horas!14:45h. Enquanto me secava à pressa, ouvi aquilo que parecia ser um relinchar. Já estava acordado há mais de uma hora, por isso não podia estar a sonhar. O som parecia vir da minha banheira. Outra vez. Afastei o cortinado a medo e qual não foi o meu espanto ao ver um robusto garanhão a sorrir para mim, dentro da minha própria banheira.
Deixei cair o toalhão e fiquei petrificado a olhar para aquela criatura que não parava de mostrar a saudável dentadura. Possuía uma crina majestosa e tinha o pêlo castanho muito bem tratado.
Fechei o cortinado com alguma violência, apoiei-me sobre o lavatório e vi o meu olhar esgazeado no espelho baço, cheio de vapor.
Ainda não me tinha recomposto, quando ecoou uma trombeta por toda a casa. A porta da casa-de-banho abre-se atrás de mim e eis que irrompe a figura de um arauto vestido a preceito. Avançou, imperturbável, parou, subiu para cima da sanita e anuncia num tom solene e empolado que tem como missão arrancar a minha maçã de Adão e cortar os meus dedos para bem das gentes deste reino.
Vou chegar atrasado ao trabalho. Outra vez.

terça-feira, julho 12, 2005

Um Velho


Goya

No café no lugar de dentro na zoeira turva
senta-se um velho na mesa se curva;
com um jornal diante dele, sem companhia.

E no desdém da velhice miserável
pensa como usou tão pouco o tempo deleitável
em que força, e eloquência, e beleza possuía.

Sabe que envelheceu muito; sente-o, é visível.
E contudo o tempo em que era novo ao mesmo nível
do de ontem. Que espaço apressado, que espaço apressado.

E considera como burlava dele a Prudência;
e como nela tinha confiança sempre - que demência! -
a perjura que dizia: «Amanhã. O tempo é demorado».

Lembra-se de impulsos a que punha freio; e sem medida
a alegria que sacrificava. Cada história perdida
agora troça da sua desmiolada sageza.

. . . . Mas do muito que foi pensando e não esquece
o velho atordoou-se. E adormece
no café apoiado sobre a mesa.


Konstandinos Kavafis
POEMAS E PROSAS
Tradução de Joaquim Manuel Magalhães
e Nikos Pratsinis
Relógio d´Água

sexta-feira, julho 08, 2005

Amor e favas contadas


Da Vinci

Não adianta muito adiar as coisas, sabes disso. As tuas roupas, os teus fatos italianos, todos os teus trastes sem serventia ainda estão lá em casa. É simplesmente infantil quereres prolongar aquilo que já anda moribundo há meses. Estamos a rogar por um tiro de misericórdia e ninguém tem tomates para o fazer. As tuas chamadas a meio da noite são demasiado más para serem verdade. Esqueceste que tenho de ganhar a vida e trabalhar no dia seguinte. Nunca me deste valor por aquilo que sou e por aquilo que consegui. Dizes que ganhas mais num mês do que todos os meus amigos juntos. Impinges a tua propaganda aos médicos e beija-lhes o cu, é o que é.
Que eu fique entrevada para o resto da minha vida: podes fazer uma rodinha no calendário, meu querido. Acabou-se.

Para a Margarida Rebelo Pinto, com amor...

quinta-feira, julho 07, 2005

O sonho do poema


Schiele

O sonho do poema

Por duas razões que resistem à especulação
O poema recolhe-se cedo
No corpo do poeta:
Ou o poeta se priva de sonhar
Ou o guerreiro
Decidiu descansar!
Apenas entre mãos sonhadoras o poema dorme na posição correcta!


Boujema El Aoufi
Trad. Pedro Amaral

terça-feira, julho 05, 2005

aprendi


David O'Connell

aprendi

aprendi (na igreja):
oferece também a outra face
a quem te bater na direita

aprendi (na instrução corpo-a-corpo):
um pontapé nos testículos do inimigo
é a forma mais segura de o derrubar

o que vale então?

Mateus 5. 38/39


Poemas à Margem, Kurt Marti
Tradução colectiva
Colecção «Dois Dedos de Leitura»
Apáginastantas